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Políticos de hoje e conversão ao diálogo

Um responsável político dizia na televisão que muitos dos que ouvem a gente da governação e dos seus partidos formatam logo as palavras ditas para que sejam as que desejavam ouvir, sem respeito por aquelas que, de facto, se disseram. Isto acontece muitas vezes com políticos partidários e com agentes da comunicação social, ideologicamente tocados por ideias contrárias a quem governa. A gente da política partidária do país anda armada. Mais quer motivos para atacar e denegrir do que para ouvir, refletir, confrontar, dialogar e, feito tudo, denunciar, se for caso disso.

D. António Marcelino
6 Jan 2013

Cresce também cada dia a “caça às bruxas”, onde se torce e retorce  tudo para que tudo resulte como quer o caçador. A comunicação social tem mérito reconhecido no desmontar de muitos edifícios com alicerces sem consistência e no apear de estátuas com pés de barro. É a sua missão. Mas ninguém a dispensa de trilhar caminhos de respeito pela verdade, de depor preconceitos, simpatias e antipatias de qualquer ordem, de respeitar as pessoas e promover o bem da comunidade no seu conjunto. Não deve sobrevoar, nem aterrar em interesses partidários.
Todos podemos comprovar uma
realidade que pouco nos honra. Muitas vezes ficamos a interrogar-nos sobre o que ouvimos em direto e o que se comenta já distorcido, se é de acreditar na bomba lançada na primeira página dos jornais interessados em vender e nos noticiários à procura de audiências, empenhando-se a fundo em transmitir o que interessa só a alguns. Temos de aprender a esperar que as paixões um dia serenem.
Perante o lido e o ouvido, quando já distorcidos, não vale a pena pensar em recriminações, nem obrigar a desmentidos. Está tudo segundo o tempo que vivemos e a compreensão oblíqua da democracia. Um dia, a verdade, tal como o azeite, virá ao de cima. Pena é que muitas vítimas ficam pelo caminho desfeadas e doridas.
A justiça cai frequentemente na rua. Basta ser suspeito para ser julgado e condenado na praça pública. Nem culpa formada, nem tempo para o contraditório em que mesmo os culpados têm direito a defender-se.
Deixa sempre uma impressão a veemência com que os partidos políticos falam uns dos outros e dos seus projetos de futuro. Realiza-se uma assembleia partidária regular e a eloquência e a imaginação disparam. O sonho fica logo realidade. Dá, pelo menos, para se conservarem os adeptos e se conquistar os que gostam das certezas gritadas pelos oradores de ofício.
A política partidária ou reflete, seriamente, sobre o que lhe compete no governo ou na oposição e como viver em pluralismo democrático ou esvazia-se progressivamente de ideias e possibilidades de ser útil ao país. O tempo é o juiz inexorável dos projetos e dos sonhos inconsistentes atirados para a opinião pública. Hoje, os êxitos partidários surgem aos solavancos. Parece que os partidos são doentes bipolares. Essa doença da moda. O sim e o não sucedem-se em regular alternância e aparecem enfunados pelos ventos favoráveis ou contrários, conforme os mesmos sopram. Às euforias sucedem as frustrações que desacreditam quem fala, bem como a própria ação política.
O país precisa de gente vocacionada e preparada para a atividade política. Gente marcada pelo propósito de servir, com honestidade e competência, mais que pelo desejo de encontrar emprego e fazer nome na política. Gente capaz de dialogar com respeito e que não caia na tentação do “orgulhosamente sós”.
Ao longo de décadas de democracia, sentaram-se na cadeira do poder muitos que já traziam consigo a marca de estrelas cadentes. Não deixaram, por boas razões, nem obras nem nome que agrade lembrar. Outros houve que serão sempre recordados pela sua competência, honestidade, espírito de serviço e sentido de Estado.
Vem aí a corrida às autarquias. Não falta gente com pressa de aparecer. Lutas internas, boatos sem inocência, dúvidas que orientam a opinião pública… Se a escolha, por voto, fosse nominal, muitas surpresas apareceriam, muito joio se podia expurgar.
Não são precisos génios para governar. Os génios enredam-se facilmente. Bastam pessoas normais, humildes e com senso, capazes, honestas e respeitadas no meio, independentes e não vendáveis. O mercado não está a abarrotar, mas há ainda pessoas assim, que muitas vezes se escusam, porque não estão dispostas a entrar em arraiais de rua, nem a caminhar em campos minados de intrigas.




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