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Jornalismo e ovos estragados

Um dos derradeiros faits divers do ano que terminou foi protagonizado por um jovem tunisino que julgou ser capaz de ganhar uma determinada quantia de dinheiro, não especificada, ao apostar que conseguiria ingerir trinta ovos crus uns a seguir aos outros. Não conseguiu, relatou o Jornal de Notícias no dia 28 de dezembro. A mal sucedida façanha começou por provocar dores de barriga e acabou de um modo trágico com a morte do pobre rapaz. O episódio confirma aquilo que todos saberão – ou deveriam saber. Não se pode enviar para o estômago tantos ovos seguidos. O risco de, num deles, poder viajar, clandestina, uma salmonela seria, aliás, o bastante para que o cuidado imperasse.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
6 Jan 2013

Mas se as cautelas em relação ao consumo de alimentos são, hoje, entre nós, algo que amplamente se tem em devida conta, os cuidados rarefazem-se quando se trata do consumo mediático. E, no entanto, mesmo que as metáforas higiénicas não sejam as mais recomendáveis, quanta prudência não importaria ter para evitar moléstias certas, que chegam quando se usam inapropriadamente os media; quando se leem jornais, ouvem estações de rádio ou veem canais televisivos sem regra nem aviso.
Um correlato de salmonela que infestou uma abundante quantidade de informação no fim de 2012 e no início de 2013 foi uma singular personagem, em alguns sítios apresentada como “o nosso homem na ONU”. Infestou-a, enquanto era, sem as aspas, o nosso homem na ONU, porque apareceu a falar sobre matéria grave, revelando factos, analisando dados e apontando caminhos, com a autoridade que o relevo da função lhe conferia. E prosseguiu, infestando-a, porque, nos media, nada se perde, tudo se recicla, e da história das verdades que tinham de ser escutadas saltou-se para a história de um contador de mentiras.
Como no caso daquele parvo que olhava para o dedo quando o dedo apontava para a lua, nesta história de uma espécie de salmonela informativa, em vez de se olhar para a doença de que ela foi, de facto e como símbolo, portadora, tratando de a sarar, tem-se ficado muitas vezes a olhar apenas para a bactéria, procurando descrevê-la com cada vez maior minúcia.
É que aquilo que a história do “nosso homem na ONU”, desde logo, demonstra, e eloquentemente, é que qualquer alma desde que investida de um título ou de uma função se vê conferida de uma autoridade opinativa, cujo escrutínio parece tornar-se dispensável. Uma criatura que, por exemplo, seja apresentada como “um senador” ou como pertencente a uma universidade, e que, por isso, seja especialista numa coisa qualquer, é capaz de suscitar o pasmo de muitos, mesmo que, como frequentemente sucede, não seja capaz de proferir mais do que as mais simples banalidades ou as mais improváveis tolices. De resto, desde que papagueada com uma certa solenidade paternalista ou maternalista, qualquer inanidade tende a impressionar.
As ideias sem préstimo ou perniciosas que infestam os espaços opinativos ou contaminam o corpo das notícias dos jornais, das rádios ou das televisões – e as opiniões nocivas que mais mal causam são as que, dissimuladas nas notícias, se apresentam como factos – apenas parecem ser rejeitadas se se der o caso de o respetivo autor ser acusado de usurpação do título ou da função que lhe serviu de apresentação. De outro modo, vão, mais ou menos tranquilamente, fazendo o seu percurso daninho. Privando de nutrientes ou intoxicando. Sempre impedindo que boas ideias floresçam.




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