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Os bracarenses são os culpados

Eu, tu, nós bracarenses somos os culpados! E perguntam com razão: “culpados de quê?” Pela inércia! Sim, por termos ficado impávidos e serenos lendo jornais e trocando jocosos comentários no facebook enquanto delapidavam, dizimavam, aniquilavam, destruíam, maltratavam, arrasavam, confiscavam, adulteravam, o coração da nossa cidade! Sim, porque o slogan que, por aí, hipocritamente, se leu e ouviu ao longo do aborrecido e incipiente evento de índole europeu que há poucos dias cessou oficialmente, preconizava que “todos somos Braga”. Então se todos somos Braga, todos somos culpados!

João Gomes
30 Dez 2012

Pior do que a ação dos muçulmanos que invadiram deliberadamente e destruíram, no século VIII, parte de um dos mais importantes bastiões da cristandade, sem apelo nem agravo, nos últimos meses, os que estão a “regenerar” Braga causaram uma destruição maior. Uma destruição endógena e cínica de um património que nos identifica, que nos define enquanto urbe. E quem nos visita não quer ver mais do mesmo que encontra num qualquer vilarejo prefabricado. O estrangeiro, o turista de bom-gosto prefere o que é genuíno. E eu, tu, nós bracarenses deixamos, por exemplo, que fossem retiradas as lajes que calcorreamos vezes sem conta, deixamos que arrancassem as árvores que nos habituamos a contemplar e a sentir o cheiro, tudo em nome de um comportamento cívico exemplar!
No passado dia 15 de setembro tive orgulho de nós bracarenses! Saímos à rua por uma causa nobre: estava (e está) em causa a nossa sobrevivência soberana e material e havia que se tomar posição firme face ao estrangulamento que outros pretendem perpetrar a partir de Lisboa ou Bruxelas. 
Mas, e por Braga o que fizemos bracarenses? Escrevemos uns artigos nos jornais? Lançamos uns comentários críticos na internet? Notável esforço! Há aldeolas, que por muito menos se levantam a propósito, por exemplo, do direito de usufruto de caminhos públicos ou da livre circulação dos cursos de água.
Neste ponto deste artigo estará o Senhor Engenheiro a pensar: “Mais um bota-abaixo”. Não! Não estou aqui ao serviço de qualquer partido político da oposição ou de qualquer outra organização de defesa do património histórico bracarense. Mas sim somente ao serviço da defesa do bem público, da rés pública que tendencialmente se está a metamorfosear para muito pior e sem hipótese de recuperação.
Em outubro de 2013, lamento mas será tarde. Depois do Senhor Engenheiro, teremos um centro histórico platinado, arrojado e futurista ao estilo saudita dos petrodólares para gaudio da imensa massa dos seguidores do betão.
Por estes dias se completa mais um aniversário da morte do arqueólogo Albano Bellino, um dos maiores defensores do património arqueológico de Bracara Augusta e, principalmente, das estruturas defensivas do castelo de Braga, cuja destruição contribuiu certamente para a sua agonizante morte. Foi o maior exemplo de luta e perseverança na sua conservação de um bem histórico que nos distinguiria enquanto cidade, mas que foi vencido pela mentalidade dominante. Em 1906, como hoje, se vai destruindo o pouco que existe, esbanjando-se ironicamente dinheiros públicos de quem atualmente passa fome.




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