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Até a esperança está em crise

É tradição cultural, na véspera de Ano Novo, saudar o ano novo e formular desejos de prosperidade. Para alguns, isto funciona quase como uma superstição. Não diria tanto, mas apenas a expressão cultural ritualizada da força do desejo, porque nada tem mais força dentro de nós do que o desejo: a paixão impulsiona a vida. No nosso caso, temos um problema: como se vai desejar um Bom Ano Novo para 2013, se ele ainda vai ser pior do que o de 2012? Até a esperança está em crise…

M. Ribeiro Fernandes
30 Dez 2012

A data da anunciada recuperação económica vai-se adiando, adiando, cada vez está mais longínqua, tão longínqua e tão incerta que se torna difícil enxergá-la. Passos Coelho bem tentou disfarçar retoricamente essa realidade na mensagem de Natal; mas, como viu que a conversa não caiu bem, tentou a via pessoal do sentimento, a ver se pegava. Truques populistas que fazem pena… Um líder, que é líder mesmo, não procede assim. Mas, cada um dá o que tem…
1. Aqueles que gostam de sublinhar a dimensão histórica de longo prazo da esperança podem sempre dizer que ela irá começar a aparecer algures e em algum tempo, que ainda se não prevê. Pode ser. Mas, e o dia de hoje, em que não se pode adiar ter de comer e de beber e outras despesas para a sobrevivência? Que fazer no dia de hoje? 
Depois, para o povo acreditar, é preciso que quem anuncia a esperança de melhores dias mereça credibilidade. E merece?
2. Talvez devêssemos antes fazer votos de Bom Ano Novo por outras realidades. Um dos nossos maiores problemas culturais é entender a esperança apenas de uma forma passiva, em vez de lutarmos activamente por ela. Aliás, os votos de Bom Ano baseiam-se nessa força activa, que determina o empenho de cada um. Ora, é a coberto dessa falha de empenhamento activo que gente sem preparação nem qualidade de liderança se tem apoderado do poder e agido como se todos fossem carneiros mudos de um rebanho obediente que se deixa tosquiar sem gemidos, depois de depositar o voto nas urnas. A deterioração dos partidos a isso tem conduzido.
Neste sentido, eu arriscaria sugerir dois desejos: que o povo recupere a consciência de ser o centro do poder e que os partidos políticos sejam renovados. O povo recuperar a consciência de ser o centro do poder não significa optar por eleições imediatas, mas apenas recuperar a consciência de que a política é para o povo. A política não é dos políticos, é do povo. Estes só têm o dever de executar a vontade do povo e não substituir-se ao povo.

3. Um terceiro voto seria acabar com a mentalidade de haver empregos políticos. Não há empregos políticos. Os cargos políticos são temporários. E todo o povo é político. Todos têm o direito de exercer cargos políticos. Mas, quem o quiser fazer, deve antes dar provas de competência e de ter exercido com êxito uma profissão, não apenas para ter experiência de vida, mas também para não procurar ficar toda a vida agarrado à política por não saber fazer mais nada. Se assim fosse, já Relvas não ousaria criar empregos dourados para ex-autarcas, a fim de garantir o seu empenhamento em arranjar votos do povo. Isto é uma vergonha e um abuso dos dinheiros do povo. Porque não vão trabalhar na sua profissão, como toda agente, quando deixarem a política? Por acaso, pertencem a alguma casta especial ou são vacas sagradas?

4. E ainda um quarto voto, que é apenas uma pergunta. Todos sabem que este governo herdou uma pesada herança de dívidas e de erros graves de gestão que o povo tem agora de pagar. Se a lei é igual para todos, porque não são responsabilizados pelos seus actos? Mas, a questão que se põe não é apenas essa: é também saber se este Governo da facção populista do PSD se tem mostrado competente para resolver esses problemas e deve continuar no poder (e se o PSD é isto, como diria Barbosa de Melo). Isto não significa que se deixe cair nas mão do partido da oposição que nos deixou esta desgraça e que mais não sabe do que aproveitar o descontentamento do povo. Há mais caminhos sob o sol.
Aqui ficam alguns desejos para o Novo Ano, a ver se a esperança sai da crise.




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