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Luxo de pensar

Só faltam dias para o Ano Novo. Estou farto de escrever relatórios. Tal como devem estar fartos miríades de trabalhadores da função pública. Alguém já contabilizou a perda de tempo de escrever relatórios, preencher campos em impressos on-line? O culto de números, de estatísticas, de percentagens que indicam ou pretendem indicar crescimento, inclusive «crescimento negativo», já não consegue iludir a necessidade, cada vez mais evidente, da mudança do paradigma. Basta abrir uma revista que resistiu ao destino de acabar no lixo. Destino que é imagem da nossa amnésia coletiva.

Orlando Grossegesse
29 Dez 2012

Encontro uma caricatura de Luís Afonso que mostra o início duma ponte frágil por encima de um abismo, indicada pelo letreiro como «Saída da crise». No entanto, com uma advertência: «uso exclusivo de optimistas». Isto foi a 20 de novembro de 2005. Sete anos mais tarde, qualquer cidadão que não se deixe apaziguar pela litania infinita de números, vírgulas e mais números, apercebe-se de que a tal crise apenas acabou de arrancar. Trata-se de acabar com «a droga» do crescimento, como diz Tim Jackson da Universidade de Surrey, autor do livro “Prosperity without Growth. Economics for a Finite Planet”, e fundador do grupo de investigação RESOLVE. Trata-se de voltar ao chão da rea-lidade das nossas vidas.
Estou farto de ouvir políticos invocarem a superação do pessimismo, a falarem da nossa pieguice. Já não é no próximo ano que vamos crescer. A promessa vai para o ano depois do próximo. Não precisamos disto. Precisamos de senso comum ou, noutras palavras, do luxo de pensar. Não há nenhuma lei que nos mande parar de pensar quando as nossas condições de vida estiverem em mudança. E estão. A falta de dinheiro, a falta de tempo, a falta de recursos são desculpas baratas demais para a inércia de pensar um estilo de vida alternativo. Uma vida que não se baseie em crescimento, conceito quantitativo muitas vezes confundido com progresso, transformado num palavrão político tal como os de desenvolvimento e sustentabilidade.
Estou a pensar num ensaio de Hans-Ulrich Gumbrecht,  intitulado “O luxo de pensar livremente” e publicado no início do ano de 2007, que questiona aquela obsessão de antecipar cada início de ano, não só invocando centenários e meio centenários de ilustres mortos mas também focando fenómenos ou temáticas gerais. Tais como, em 2011, o voluntariado, ou em 2012, do envelhecimento ativo e da solidariedade (nem me apetece falar da temática muito original pensada para o ano de 2013). Tudo é inundado pela cultura do efémero, do evento e do espetáculo – tudo desenhado em planificações mais ou menos irrealistas e contabilizado nos relatórios que, com base em estatísticas e números, sempre falam de objetivos alcançados. A nossa cultura e memória individuais e a nossa vida espiritual não contam porque não contribuem em nada para a ideia salvadora do crescimento. Portanto, são um luxo descartável. Tal como o próprio pensamento autónomo do ser humano. É a hora dos especialistas e de acreditar cegamente neles.
Devemos perguntar-nos se não existe também outra riqueza, não tão quantificável, num planeta que chegou aos limites do crescimento: a riqueza em complexidade e excentricidade, diversidade de etnias, pluralidade de línguas e culturas, memórias e possibilidades de diálogo e hibridação, fonte de criatividade que, não em último lugar, nos faz consumir e desperdiçar menos. O contributo de tudo isto para alimentar outra qualidade das nossas vidas é subestimado. Deve-se isto à inércia de continuarmos no paradigma de crescimento e consumo que é profundamente individualista em vez de construirmos a evolução plural mas solidária da Humanidade, em passos pequenos e gestos de vida quotidiana, sem grande publicidade e sem discurso político melífluo. A promoção efémera da cultura nas praças e nos corredores de mármore dos centros comerciais por onde empurramos as carrinhas de compra cada vez mais vazias não dispensa o pensar criativo em alternativas ao status quo cada vez mais inumano. Devemos permitir-nos este luxo de pensar. O pensamento ecológico que surge relativamente à natureza, sabendo dos limites dos recursos naturais, teremos que aplicá-lo à própria Humanidade se não queremos ser cúmplices da sua extinção parcial.




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