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O serviço da caridade

Entrou em vigor em 10 de dezembro uma Carta Apostólica de Bento XVI sob a forma de Motu Proprio que tem por tema a organização do serviço da Caridade. O Papa começa por recordar doutrina exposta na sua primeira encíclica, Deus é amor, para salientar que «a natureza íntima da Igreja se exprime num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros». 

Silva Araújo
27 Dez 2012

Salientando que «o serviço da caridade é uma dimensão constitutiva da missão da Igreja e expressão irrenunciável da sua própria essência», Bento XVI lembra que a caridade deve ser exercida a nível individual e a nível comunitário.
«Todos os fiéis têm o direito e o dever de se empenharem pessoalmente por viver o mandamento novo que Cristo nos deixou»: «é este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei» (João 15, 12.
«A Igreja, acrescenta, é chamada à prática da diakonia da caridade também a nível comunitário, desde as pequenas comunidades locais passando pelas igrejas particulares até à Igreja universal». Isto implica a necessidade de organização.
As iniciativas organizadas tanto podem surgir por iniciativa da Hierarquia – o caso da Caritas, por exemplo – como do livre empenhamento de fiéis que querem, de diferentes formas, contribuir com o próprio esforço para testemunhar concretamente a caridade para com os necessitados.
 
A prática da caridade deve ter em vista o bem do homem todo, oferecendo-lhe «não só ajuda material, mas também o refrigério e cuidado para a alma».
Não deve ser exercida de qualquer maneira, e talvez aqui resida uma grande diferença entre caridade e solidariedade.
É importante ter presente, escreve o Papa, citando a encíclica Deus é Amor, que «a ação prática resulta insuficiente se não for palpável nela o amor pelo homem, um amor que se nutre do encontro com Cristo. Portanto, na sua atividade caritativa, as variadas organizações católicas não se devem limitar a uma mera recolha ou distribuição de fundos, mas sempre devem dedicar uma especial atenção à pessoa necessitada e, de igual modo, efetuar na comunidade cristã uma singular função pedagógica, favorecendo a educação para a partilha, o respeito e o amor, segundo a lógica do Evangelho de Cristo. Com efeito, a atividade caritativa da Igreja, nos seus diversos níveis, deve evitar o risco de se diluir na organização assistencial comum, tornando-se uma simples variante da mesma».
Tratando-se de atividades promovidas pela Hierarquia ou por ela sustentadas, «é preciso garantir que a sua gestão se realize de acordo com as exigências da doutrina da Igreja e segundo as intenções dos fiéis e respeite também as normas legítimas estabelecidas pela autoridade civil».
 
O exercício comunitário da caridade necessita de uma organização. Com o presente Motu Proprio o Papa pretende «fornecer um quadro normativo orgânico que sirva para ordenar melhor, nas suas linhas gerais,  as diversas formas eclesiais organizadas do serviço da caridade».
 
Relativamente ao exercício comunitário da caridade o Papa afirma «caber aos Bispos enquanto sucessores dos Apóstolos a primeira responsabilidade pelo serviço da caridade»
Sendo assim, lê-se no texto, «o Bispo favoreça, em cada paróquia da sua circunscrição, a criação de um serviço de «Caritas» paroquial ou análogo, que promova também uma ação pedagógica no âmbito de toda a comunidade educando para o espírito de partilha e de caridade autêntica».
 
As normas entradas em vigor em 10 de dezembro começam por reconhecer que «os fiéis têm o direito de associar-se e instituir organismos que realizem específicos serviços de caridade, sobretudo a favor dos pobres e atribulados. Na medida em que se apresentem relacionados com o serviço da caridade dos Pastores da Igreja e/ou pretendam valer-se da contribuição dos fiéis para tal finalidade, devem submeter os próprios estatutos à aprovação da autoridade eclesiástica competente», a quem hão de apresentar também o balanço anual.
 «São obrigadas a seguir na sua atividade os princípios católicos e não podem aceitar compromissos que de alguma forma condicionem a observância destes princípios».
 
É dever do Bispo Diocesano cuidar que «as suas atividades mantenham vivo o espírito evangélico».
Para garantir este testemunho, no serviço da caridade, «o Bispo diocesano cuide que quantos operam na pastoral caritativa da Igreja, a par da devida competência profissional, deem exemplo de vida cristã e testemunhem uma formação do coração que ateste uma fé em ação na caridade. Com esta finalidade, providencie à sua formação, mesmo em âmbito teológico e pastoral, através de currículos específicos concordados com os dirigentes dos vários organismos e através de adequadas propostas de vida espiritual».
É também dever do Bispo cuidar «que a gestão das iniciativas, que dele dependem, dê testemunho de sobriedade cristã. Com este objetivo, vigiará para que os ordenados e as despesas de gestão, embora correspondendo às exigências da justiça e aos perfis profissionais requeridos, sejam devidamente proporcionados com análogas despesas da própria Cúria diocesana».




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