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Presépio: o essencial e o acessório da história

Elegemos, algumas vezes, aspetos de importância menor – questiúnculas ou minudências – à categoria de um título, de uma contenda ou de uma divergência radical. Acontece nas relações humanas, na atividade política e também na religião. Quase sempre, o objetivo é protagonismo. Quando o interesse é grande e não há fundamento essencial que faça prevalecer um argumento, recorre-se ao acessório.

Luís Martins
26 Dez 2012

A vaca e o burro estiveram ou não no primeiro presépio de Belém? Isso é essencial ou meramente acessório na compreensão do que se passou há dois mil anos? O Papa Bento XVI alegou, na sua última publicação “A Infância de Jesus” que aqueles animais não estariam lá. A posição mereceu, desde logo, comentários inusitados, desproporcionados e desfasados. Um manancial de críticas, como se a presença dos ditos seja importante para a compreensão da história e para alimentar uma fé maior.
Estamos habituados a ver o presépio com as figuras centrais em posição de quem aguarda a visita dos pastores e dos reis magos. No entanto, se pensarmos um pouco, talvez isso não seja razoável. Afinal de contas, Maria e José foram apanhados, em terra estranha, embora não totalmente, pelo momento do nascimento de Jesus. Lá como aqui, então como agora, os vizinhos e os amigos são os primeiros a chegar, para ver e cumprimentar a mãe e a criança. Ora, naquela circunstância, nem uns nem outros estariam próximos. A novidade é que algo de extraordinário se passou, pois foram atraídos para o local de nascimento, pessoas desconhecidas, a começar pelos pastores e os reis magos. Não foram os amigos, que lá apareceram, pelas circunstâncias da família estar em trânsito, em Belém. Os pastores teriam sido os primeiros, de acordo com os Evangelhos. Os amigos terão ficado em Nazaré, a não ser algum que tenha viajado com a família de Jesus, o que não sabemos, embora possamos imaginar. Foram desconhecidos, é quase certo, os primeiros a contemplar e a adorar o Menino. Os familiares e amigos da família de Jesus tê-lo–ão feito só algum tempo depois. Isto é essencial para a história da salvação? Não creio.
 Mas voltemos ao presépio de barro ou de outro material. Quase todos têm micas, musgo e outra vegetação. Têm casas modernas, até com luz, e alguns têm mesmo bandas de música, o que quase de certeza não aconteceu. A imaginação faz-nos recriar a história. Mas, não passam de aspetos laterais. Nunca, que me lembre, se questionou tanto se uma ou outra figura fez ou não parte do elenco de protagonistas do presépio, como aconteceu com o livro recente do actual Papa. É aí referido que não é crível que a vaca e o burro fizessem parte do primeiro presépio da história, dando azo às mais diversas alegações.
Estamos habituados a fazer o presépio como nos ensinaram quando éramos ainda pequenos. Às imagens da Família de Nazaré acrescentamos outras, como a vaca e o burro – sempre me disseram que estavam ali para aquecer o Menino. Os Evangelhos não falam deles, é certo. Podiam estar lá ou não, não sabemos. Os pastores, sim. Os magos, também. São mencionados nos textos bíblicos. Mas, se podemos colocar uma banda de música na proximidade da cabana, por que não manter a vaca e o burro junto ao Menino? Não é uma questão de fé, nem altera nada de substancial à história da salvação.

O essencial é Jesus Menino, Sua Mãe e S. José, Seu Pai adotivo. É a família constituída, que se ama, se quer bem e está decidida a fazer o que for preciso para cumprir o compromisso assumido com o Anjo. A Família que nos deve servir de exemplo a vida toda. O resto é acessório. Tal não nos deve impedir – Bento XVI di-lo claramente – de construirmos o nosso presépio como quisermos, com as imagens todas, vaca e burro incluídos. Nenhuma tem que ficar na caixa onde as guardamos de um ano para outro. Continuo a colocar lá a vaca e o burro. Não perturbam o essencial. As figuras centrais continuam a ser, como não podia deixar de ser, Maria, José e Jesus, como há dois mil anos.




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