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A inutilidade do sofrimento

Ontem enviei a amigos por correio eletrónico um link sobre coisas de afetos e juntei um do Youtube do tema musical de fundo que se ouvia enquanto se podia ir lendo o texto. O tema é de Gary Jules e intitula-se “Mad World” que, aliás devem conhecer. Curiosamente o autor não fez mais nada referenciável, é de um álbum de 2001, limitando-se a “remakes” (arranjos e reconversões) do mesmo tema, que aparecem pelo Youtube.

Jorge Leitão
26 Dez 2012

2001… não sei bem mas esse ano, ou por aí, parece ter alguma relação com episódios bons. Li que o cérebro obnubila as más recordações para que a nossa vida se não transforme num inferno. Mas no meu subconsciente há lá qualquer coisa pois ao escrever o ano parei a pensar. Não. Detesto recordar. Para quem não está tão familiarizado com a etimologia, devo esclarecer que a palavra “recordar” vem da raiz da palavra coração em latim (cor, cordis) Então recordar significa “passar novamente pelo coração”. Além disso, para os romanos o coração era o centro da memória. Não deixa no mínimo de ser sentimental pensar na evolução da palavra e concluir que as palavras com a mesma raiz, tenham a ver com coração? E há tantas no nosso vocabulário… (curiosamente “corda” tem outra etimologia: vem do grego e significava tripa).
De todas elas a de que mais gosto é “coragem”, já que “cordial”, tronco de tantos afetos, no presente ela soa tanto a falso.
Uma das que não gosto muito é “acordar” salvo raros contextos. Às vezes acordar é sair de um sonho feliz. E, não lhe estou a dar apenas o sentido de despertar do sono. É que às vezes sonhamos acordados e é um sobressalto cairmos sem paraquedas no real. Segundo
Eduardo Punset «a felicidade é a ausência de medo». A questão é que nesse estado não nos sentimos felizes. «A felicidade apenas dura o tempo que decorre entre a expectativa e a sua satisfação», afirma o pensador. Por isso convém termos sempre um desejo em mente, um desejo que até pode ser uma coisa pequena como o de chegar a casa após um dia de trabalho ou tomarmos um banho quente num dia frio. O importante é que ele não se extreme em ansiedade, como por exemplo o receio de perdermos o emprego ou de morrermos.
Mas como evitar o medo? A questão é que o medo é fundamental à sobrevivência de cada um. Digamos que o medo é comum a todas as espécies animais. Foi o medo que fez com que os nossos antepassados se protegessem das feras e nós somos a sua descendência. No fundo todos os avisos do organismo, como as dores físicas são informações que nos conduzem à tomada de precauções contra o medo. E, sem pôr em causa a fé de cada um, as próprias religiões antes de evoluírem para um conjunto de sistemas culturais e de crenças que estabelece os símbolos que relacionam a humanidade com a espiritualidade e seus próprios valores morais, surgiram inicialmente como efeito psicológico irracional ao medo.
Foi por essa razão que antes referi que a palavra de que mais gosto é “coragem”. Só ela consegue enfrentar o medo e a dor. Porém tudo falha perante uma dor súbita como a notícia de uma doença fatal ou a morte repentina de alguém que muito estimamos. É tão inesperado como a súbita transição da vigília para o sono. Ficamos ansiosos quando nos deitamos com o propósito de dormir e o sono não vem . Mas quando acordamos após umas horas de descanso, ficamos sem saber quando sono aconteceu. Mesmo encontrando algumas explicações ao nível das neurociências (ler António Damásio – Livro da Consciência), sentimo-nos infantilizados perante a ausência de respostas prudentes.
Habitualmente deito-me à hora em que os rouxinóis começam a cantar. Dou uma olhada pelo céu com os binóculos. Gosto de ver as alterações dos planetas, olho a posição da estrela Sírios na constelação de Canis, a mais brilhante depois do Sol. Há um rouxinol que canta próximo do meu prédio. A princípio confundia o seu canto com o do pisco de peito ruivo. Mas os piscos não cantam de madrugada.  Se chove nada se vê, nada se ouve. Deito-me então imaginando. Será como quem reza? Não entendo por que as pessoas se conflituam. Até no seio das famílias… Se a dor e o medo são algo intrínseco à espécie, há sofrimento que é absolutamente inútil à felicidade.




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