Fotografia:
Postal de Natal

Hoje é dia de consoada. Em todos os lares a lareira está mais acesa e em todos os corações o calor é mais forte. As cozinhas, transformadas em solares de gulodice, desafiam e aguçam os apetites. Anda nos ares a música do jingle bell e nos nossos espíritos ressoam hinos de paz e alegria. No meio de tantas luzes das gambiarras e dos fustões mais ou menos coloridos, a árvore de natal é presença forte. Lá no canto da sala está o presépio com as figuras sagradas: o Menino, S. José e Nossa Senhora.

Paulo Fafe
24 Dez 2012

Chegam de fora os tios e os primos, há um ano que se não viam e agora, na cara de felicidade se estampam as boas-festas e as novidades. Eu hoje jurei não ser realista e não falar das crianças que passam fome ou naqueles que em Newtown de Connecticut morreram aos tiros tresloucados de quem, certamente, era muito adestrado no manejo das armas e muito pouco formado como pessoa. Mas um curto minuto de silêncio por estes inocentes não faz mal à alegria do dia que passa. Voltemos ao Natal e vamos encontrar-nos ou melhor, reencontrar-nos com os dias de outros natais e lá vêm, no borbulhar de ecos passados, as recordações de menino que fui e principalmente de menino de catequese. Era na igreja de minha aldeia que me postava, embevecido, diante do presépio de musgo feito, com coreto da Rosa Ramalho, fogueteiro, muares e moleiros, quedas de água, repuxos, ameias de cidade de Jerusalém, reis magos, numa mistura profano-religiosa que em mim tinha o poder de  sortilégio. Era eu menino e olhava para o Menino que estava nas palhinhas e agradecia o bafo quente da vaquinha e do burrinho; burrinho e vaquinha porque sentia que, chamar-lhe burro ou vaca, era ser grosseiro com quem era tão delicado. Lá fora o frio era intenso; em dezembro, na minha aldeia a geada era de palmo, pingentes de geada embrincavam nos ramos das árvores, secavam nos canos as água correntes e nos tanques podia-se patinar. E eu sentia, no agasalho todo de menino privilegiado, o frio dos que não tinham botas quentes, casacos grossos, sobretudos aconchegantes e, neste desfile que era calvário de muitos, se quedavam as sombras que vinham entristecer os meus natais. Mas já logo a mãe dava ordens de irmos para a mesa da farta consoa-
da. No egoísmo de quem tem de esquecer para ser feliz, a noite de Natal era de celebração. São recordações como barco que volta ao cais. Mas se tirarmos ao homem tudo o que lhe vem da memória, fica-lhe apenas um ser reduzido à sensação, ao que passa e não fica, e mais ou menos indistinto do animal. Sem a memória, coisa eminentemente pessoal, as ideias gerais ou abstratas são praticamente impossíveis e perdem-se, por conseguinte, todas as funções mentais superiores. A memória é uma linguagem e é lícito ao teórico demonstrar que o homem tem direito à abertura do futuro através dessa mesma janela aberta para o passado, isto é, recordando. Neste Natal de 2012 busco e encontro os natais idos e, em memorial, lembro o desgosto que fui experimentando quando ia vendo ano a ano, paulatinamente como doença silenciosa, o  meu Menino Jesus ser subalternizado pelo velho das barbas. Este vinha de trenó, bem vestido e rico puxado por animais estranhos tão diferentes dos que aqueciam meu Menino que era pobre e estava nu. Ainda hoje escolho o meu Menino Jesus; sinto-O por inteiro pela escuta que faço quando caio dentro de mim e lá encontro o mesmo menino de catequese que se embasbacava diante do presépio da igreja da sua aldeia. Se o homem não pode vencer a morte pode ao menos fazer ressuscitar o tempo, tempo que é também templo de afetos.




Notícias relacionadas


Scroll Up