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O suave encanto do Natal

Interrompo a reflexão sobre o estado atual da Confissão para poder falar um pouco sobre o suave encanto do Natal, mesmo arriscando não saber dizer nada de especial. Não vou citar livros de outros, porque são de outros; o único testemunho que tenho para oferecer é o que eu penso e o que eu sinto. É disso que vou falar. E faço-o com o deslumbramento de quem procura descobrir um mistério que dá gosto descobrir. O Natal encerra algo de tão bom e tão misterioso que a primeira coisa que nos apetece fazer é não guardá-lo apenas para nós, mas desejá-lo também aos outros. Deve ser por isso que ele nos torna espontaneamente mais solidários. O desejo de ser feliz com os outros é uma bonita característica do Natal.

M. Ribeiro Fernandes
23 Dez 2012

1. Costumamos associar o Natal à Esperança, a alguém que há-de nascer. O Natal tem algo de expectativa de nascer de novo. Quando sonham com o futuro, os jovens sentem-se impelidos para alguém como uma nova polaridade, não para serem felizes sozinhos (isso existirá?), mas na busca de uma nova felicidade, que se caracteriza pelo gosto de viver com alguém que ama. Não como fusão de duas personalidades, mas como união íntima de duas personalidades que se comprometem mutuamente por gosto de viver. O amor acrescenta uma nova polaridade.
Também a sedução do Natal funciona assim: como uma nova polaridade que nos convida a ser melhores e a transformar o mundo, qualquer que seja o sentido que cada um lhe dê. O desejo de felicidade é universal.
2. A própria expectativa de trazer presentes para as crianças, através da fantasia do Pai Natal ou da representação do nascimento de Jesus no presépio, revela um poder mágico que é diferente de qualquer outra promessa. Mais do que um brinquedo-objeto, é a sedução de um brinquedo-presença que se traduz em suave expectativa de felicidade. O Natal é expectativa. E projeta no nosso espírito a imagem de um homem novo e de como o mundo pode vir a ser para todos os homens. Ao gerar um estado de comunhão, de esperança e de expectativa, abre as portas a alguém que está para chegar (mas que já mora dentro de nós) e nos traz a possibilidade de uma nova realização pessoal.
3. O Natal tem um lado muito feminino: o acolhimento e a sedução. E também um lado do espírito de criança: a força da humildade. Faz-nos sentir maiores do que somos, mas com espírito de simplicidade e de deslumbramento. É por isso que, se há guerra, o espírito de Natal introduz, só por si, um clima de trégua, de aproximação, de paz. O Natal é uma profecia do homem futuro que ninguém sabe decifrar, mas que todos procuram. E tem uma motivação especial que escapa a qualquer publicidade: a sedução do desejo está dentro de nós, como a voz do amor que fala sem palavras, que gera entusiasmo e nos força a procurar e rea-lizar com satisfação.
4. O espírito do Natal é uma lição para quem pretenda trabalhar com os corações: encontra aí um novo método de motivação. Não precisa de oferecer nada e muito menos aquilo que lhe não pertence, como faz a política barata; basta aprender a descobrir esta motivação e ajudar os outros a descobri-la. Mas, que não tentem ensinar aos outros aquilo que ainda não aprenderam nem ainda vivem, porque sai asneira… Ensinem apenas aquilo que aprenderam na vida, porque a magia do Natal é uma motivação tão subtil que escapa facilmente aos que não estiverem sintonizados com ela. Subtil e exigente: não uma exigência imposta de fora, mas que nasce de dentro, como o amor. Por isso, reclama que se mobilizem todos os recursos para ajudar a descobrir novos caminhos de esperança e de prosperidade. Portanto, não esperem atrair ninguém com rituais ou frases feitas, porque essa não é a sua lógica.
5. Sendo um suave encanto que seduz, o Natal exige liberdade de espírito. De um modo geral, as pessoas gostam mais de instituições organizadas, porque são menos exigentes e dão mais segurança. É que, ao contrário da instituição, a responsabilidade da liberdade de espírito não tem medida, não pode ficar aquém, como disse Mário de Sá-Carneiro. Mas, ficar aquém não apaixona. É por isso que o Natal só pode ser entendido por quem tiver a humildade do espírito de criança, a poesia dos amantes que vê para além do materialmente visível e a coragem dos que constroem sonhos. Quem veja no Natal apenas uma festa ou um ritual religioso não apreendeu mais do que o seu lado institucional: faltou-lhe ver o suave encanto do Natal.
Bom Natal!




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