Fotografia:
Menino Jesus ou pai natal?

1 Um dos grandes desgostos do meu tempo de menino foi ter perdido o lencinho do Menino Jesus. 
Naquele tempo acreditava piamente ser o Menino Jesus quem trazia as prendas pelo Natal. Antes de me deitar tinha o cuidado de colocar, não sei bem se o sapato ou se o tamanco, sobre o fogão e, depois de a Mãe me ter mimoseado com um prato de formigos quentes que todos os natais me levava à cama, adormecia, na certeza de que, no silêncio da noite, o Menino Jesus me viria trazer uma prenda. E a verdade é que, todos os anos, a prenda lá estava.

Silva Araújo
20 Dez 2012

É claro que, para isso, tinha de me portar bem, sobretudo nas proximidades do Natal. E esse programa de bom comportamento incluía a ida, manhã cedo, ainda escuro, à igreja, a fim de assistir à novena. Despertava pelo chamar da mãe e pelo rufar de tambores com que o grupo do senhor Lopes acordava a aldeia.
 
Na sua grande bondade, a minha Mãe, que Deus tem, sempre alimentou em mim esta ideia.
Muito rica de virtudes, não dispondo de grandes bens materiais, não me faltava nunca com a prenda do Menino Jesus.
Porque não sabia fazer gastos supérfluos, a prenda consistia sempre em alguma coisa que fosse útil. Naquele ano, em plena segunda guerra mundial, a prenda foi um lenço, enfeitado com uns desenhos.
Um dia tive o infortúnio de perder o lencinho do Menino Jesus, como carinhosamente lhe chamava e por que nutria um grande afeto.
 
Uma piedosa mentira
 
2. Claro que isso de o Menino Jesus descer pela chaminé a colocar prendas nos sapatinhos, que inspirou a Adolfo Simões Müller um dos seus lindos sonetos, era uma mentira. Uma piedosa mentira.
E porque entendem que se não deve mentir às crianças, resolveram deixar de lhes dizer isso. Simplesmente, numa incoerência confrangedora, decidiram corrigir uma mentira com uma outra mentira, esta ditada pela sociedade de consumo: a mentira do pai natal. E inventou-se a figura de um velhinho de barbas brancas, que dizem ir pelas portas a levar aos meninos as prendas. Prendas que, na realidade, os pais compraram, cuidadosamente guardaram e, pela calada da noite, colocam nos sapatinhos postos junto do fogão.
E em vez de dizerem às crianças que falem com o Menino Jesus recomendam-lhes que escrevam cartas ou mandem recados ao pai natal.
 
3. Na realidade, o pai natal não dá nada. Quem dá são os pais. Quem dá são certas empresas, desejosas de atraírem clientes.
O pai natal é uma ficção. O pai natal não passa de uma pessoa que, em determinadas épocas, certas casas comerciais contratam com o intuito de se tornarem conhecidas e divulgarem os seus produtos. Como noutras situações – e não quero com isto ofender ninguém – contratam um palhaço.
O pai natal, em alguns casos são familiares disfarçados.
Suponho não exagerar se disser que o pai natal não passa de uma fardeta ou de um disfarce.
 
4. Acho bem que se não minta às crianças. Mas se se não deve mentir dizendo ser o Menino Jesus quem coloca as prendas nos sapatos, porque se há de mentir dizendo que isso é feito pelo pai natal?
 
Jesus, o protagonista
 
5. No Natal o protagonismo cabe ao Menino Jesus, e a mais ninguém. É Ele quem faz anos e quem, por isso, é homenageado.
Uma forma de O homenagear consiste em viver os grandes valores que o Presépio representa: a humildade e a simplicidade.
Uma forma de O homenagear é investir no bom relacionamento entre as pessoas e na abolição de muros que separam os homens, já que Ele foi anunciado como Príncipe da Paz.
Uma forma de O homenagear consiste na prática da verdadeira solidariedade, consequência do amor desinteressado a todos, particularmente aos mais carenciados.
 
6. Os que precisam, em benefício dos quais se fazem campanhas e recolhas de alimentos, são carecidos durante todo o ano e não apenas na quadra do Natal. Neste sentido, a vivência do autêntico espírito do Natal deve manifestar-se ao longo de trezentos e sessenta e cinco dias.
Convém, entretanto, lembrar que antes da caridade está a justiça. Que se não queira dar por esmola aquilo a que as pessoas têm direito. Caridade é o que vai além do que é devido por justiça. Que o que se pratica como caridade não seja uma outra forma de restituir às pessoas o que se lhes tinha subtraído.
 
7. Esquecer os valores que o Presépio representa com o espetáculo do pai natal pode ser interpretado como uma forma de paganizar o Natal, no que os cristãos conscientes, coerentemente, não devem alinhar.
O autêntico Natal, que os cristãos devem procurar celebrar com todo o empenho, é o Natal de Jesus e não a teatralidade do pai natal.




Notícias relacionadas


Scroll Up