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Uma avisada aposta em África

Uma grande parte da sociedade portuguesa ficou em estado de choque quando ouviu da boca do nosso primeiro-ministro palavras de incentivo aos jovens para procurarem lá fora, o que cá dentro não encontram: o emprego. Não é que as pessoas não entendessem o que lhe está subjacente, mas dito daquela forma, por quem tem a obrigação de levantar a moral do país, numa altura de grandes incertezas nacionais, tais palavras foram assimiladas como um sinal de desesperança, tendo caído em desgraça na opinião pública.

Narciso Mendes
19 Dez 2012

Já o mesmo não se poderá dizer acerca das declarações que Pedro Passos Coelho proferiu, há uns dias, em Cabo Verde, ao apelar aos nossos empresários para apostarem forte no mercado africano, tendo como plataforma para a costa ocidental africana aquele país, em particular os da construção civil entre outros, aconselhando as empresas de menor dimensão a articularem-se para entrar nos novos mercados, salientando que elas têm um grande “know how” e “expertise” bastante importantes para produzirem sucesso nos países em grande crescimento e expansão, acentuando a possibilidade de aumentar, mais, ainda o nível de penetração das exportações portuguesas.
O nosso primeiro-ministro, estava a querer referir-se à nossa presença em África, pelo estabelecimento de grandes e conceituadas empresas, as quais poderão constituir-se verdadeiros pontos de referência nos mercados em que atuam-
-se, entretanto, estabelecerem um grau elevado de confiança e seriedade na execução dos projetos em execução, sem defraudarem as expectativas dos países acolhedores.
Enquanto o nosso governante se pronunciava sobre a questão em epígrafe, o ministro do urbanismo e habitação de Angola, em declarações à imprensa, mostrava a sua preocupação quanto à qualidade dos fogos habitacionais que vão construindo, naquele país, devido à má qualidade de algumas obras e falta de respeito pelas cláusulas contratuais. E fez um apelo ao setor da construção urbanismo e habitação, para redobrarem esforços na fiscalização dos projetos para que tenham mais qualidade e as empresas cumpram as cláusulas contratuais, dos cadernos de encargos, para se afirmarem no contexto das exigências e dos desafios que se colocam ao desenvolvimento, com qualidade urbana e habitacional. E, tendo em vista o rigor e exigência, aquele governante estipulou os estímulos e os incentivos aos cumpridores, com duras e drásticas penalizações para os faltosos e prevaricadores nas questões contratuais e qualitativas das obras.
É sobre este sério aviso à navegação empresarial, que os responsáveis das nossas empresas, a atuar no teatro de construção em África, deverão voltar as suas atenções. Nós por cá, já temos experiência suficiente do que foi o “boom” da construção, sobretudo nas nossas autarquias, em que uns fulanos de “bicicleta” a pedal e “carolinas” nos pés, rapidamente se transformaram em milionários empreiteiros de “Mercedes” de topo, calçando “Pradas” e arrotando notas, graças às manobras de subtração dos materiais. É que não faltam sinais de que assim é quando os telejornais relatam sobre edifícios recentes a meter água, com fendas e tectos que caiem, sem contar outros que não têm a mesma visibilidade por serem propriedade privada.
Profícuo seria, que esses industriais que se aventuram na floresta africana, do investimento, se compenetrassem de que a concorrência é feroz e os lobos financeiros, famintos de divisas, são muitos, pelo que quem por ali anda à caça, de contratos e projetos, terá que prestar atenção ao guarda-florestal, que lá vai lançando os alertas para que se evitem surpresas desagradáveis quanto ao pisar do risco. É muito importante para Portugal que as nossas empresas se internacionalizem, mas com respeito e credibilidade perante a comunidade internacional, para bem do país e de toda uma classe empresarial que se quer prestigiada, pela qualidade das obras que faz. Caso contrário, o seu sonho de expansão e aceitação no mundo, poderá traduzir-se num enorme pesadelo.




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