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Natal em tempos de crise

Estamos às portas do Natal! Um Natal em tempos de crise social. Doloroso, sofrido, desigual. Como aquele longínquo Natal de 1967, algures no norte de Angola, e de que muito bem me lembro ainda. Vivíamos, há cerca de um ano, dentro de arame farpado, num aquartelamento improvisado, de madeira, a um quilómetro de uma sanzala abandonada, desde o início da guerra, pela população civil negra. A rapaziada andava inquieta, expectante e nervosa. Era para todos o primeiro Natal longe da família, dos amigos, da terra, sem neve nem presépio, nem prendas nem pinheiro florescente, nem nada.

Dinis Salgado
19 Dez 2012

Até que a Grande Noite chegou: Naturalmente, sem estrelas no céu, como sempre em noites de cacimbo, no norte de Angola. Melhorámos, até onde podemos, a nossa Consoada e cobrimos de branco as mesas de troncos de mangueira. De especial, à sobremesa, somente uma laranja, um gomo de bolo-rei e um cálice de Porto.
Nada tínhamos para oferecer uns aos outros, a não ser o calor de uma palavra amiga, de um sorriso, de um conforto. E que em oca-
siões como esta, valem seguramente mais do que todo o ouro do mundo. E porque na véspera, o gerador se avariou, acendemos todas as velas e lamparinas que possuía-
mos, para que a noite não fosse mais escura e oblíqua.
E cantámos e rezámos. Cantámos e rezámos muito, com força e fé, com alma. Como não cantávamos nem rezávamos, há bastante tempo. Era a forma possível de estarmos mais perto uns dos outros e de exorcizarmos os fantasmas da solidão e da guerra.
Todavia, pelas três da madrugada, fomos acordados pelo rebentamento atroz de uma granada de morteiro e rajadas sucessivas de metralhadora. Cosidos ao chão como sombras, voámos para os abrigos, donde desencadeámos um contra-
-ataque rápido e enérgico. Mas, só com o raiar do dia, a calma desceu ao aquartelamento.
Foi, então, que o furriel Horta, correndo espavorido dos lados da cozinha e apontando para uma enorme cratera, junto às mesas do refeitório, onde caíra uma granada de morteiro, gritou:
– Os nossos ricos franguinhos! Era ali mesmo que estavam!
É que o capitão tinha ordenado, na véspera, ao sargento Pratas, uma melhoria de rancho para o almoço de Natal e cuja ementa constava de meio frango assado com batatas fritas para cada um, regado com dois copos de tinto.
– Que se lixe! Come-se ração de combate – desabafa o cabo Cabral.
Estamos às portas do Natal. Um Natal em tempos de crise: de crianças com fome, famílias inteiras desempregadas, idosos abandonados, jovens a emigrarem aos milhares, mulheres vítimas de violência doméstica, três milhões de portugueses, explorados, humilhados e ofendidos, a viverem com 16 euros por dia, num país injusto e desigual…
Ao menos que, não falte em cada lar e no coração dos homens, o calor de uma palavra amiga, de um sorriso, de um conforto, como não faltou naquele longínquo Natal de 1967, algures no norte de Angola e em tempos de guerra!
Então, um bom Natal e até de hoje a quinze!




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