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António Guterres, um homem sério

Caso insólito na democracia e na política nacional: António Guterres reconheceu recentemente que tem responsabilidades no estado lastimável a que chegou a nossa economia. Este contributo negativo foi dado, aquando a sua passagem, como primeiro-ministro, pelos XII e XIII Governos constitucionais. É de louvar e de enaltecer esta humildade que é ímpar no seio da classe política. Este gesto deveria servir, ao menos, de exemplo, de alerta e de pedagogia a todos os partidos que deveriam ter muito mais cuidado na escolha das suas lideranças, dado que governar um país é coisa séria que requer muita visão, muita competência e, fundamentalmente, muita seriedade.

Armindo Oliveira
19 Dez 2012

Sempre achei António Guterres um dos maiores parlamentares portugueses da era democrática. Sempre o achei um homem de caráter e genuíno. Um político confiável e extremamente sério. Sério intelectualmente e sério materialmente. Qualidade, hoje, rara e que é timbre só dos homens com H, dos homens de bem, mas que desapareceu do quadro de referências da governação nacional. Era e é um homem do diálogo e de convicções profundas.
Como político com responsabilidades governativas era um homem que alimentava o debate com correção e aprumo. Um político inteligente e sereno. Respeitava a controvérsia e as ideias dos seus adversários com dignidade. Como primeiro-ministro, recebeu uma conjuntura económica altamente favorável para brilhar. A Europa estava em expansão económica e Portugal alinhava nesta onda de crescimento e de bem-estar. Juros baixos e o petróleo ao preço da chuva. Privatizou alguns ativos importantes com destaque para a PT. Porque havia dinheiro a rodos, criou o Rendimento Mínimo, vinculou à Função Pública mais de 100 mil funcionários precários. Espalhou o Programa Pólis por muitas cidades portuguesas para tentar restaurar as asneiras cometidas pelos nossos autarcas que durante anos espalharam cimento e ferro com fartura em tudo o que fosse terreno. Era o tempo das “vacas gordas”. Apesar deste cenário favorável, falhou. Falhou, porque neste país, as coisas da governação não funcionam, nem fluem com clareza, com naturalidade e com transparência. Há muitas guerrinhas palacianas e muitos interesses instalados. Há muitas pressões obscuras que tudo fazem para torpedear quem está de boa-fé a tentar fazer o seu melhor para bem do país.
António Guterres desbaratou uma oportunidade soberana de recolocar Portugal nos países da frente no que concerne ao desenvolvimento sustentado. António Guterres, falhou. Falhou, porque nunca conseguiu limpar a podridão endémica que grassava no aparelho do seu próprio partido e do seu Governo. Por isso, foi vítima ingénua dessa podridão que impediu que usasse o seu talento e as suas convicções na sua função governativa.
Aproveitou a derrota das autárquicas para fugir à armadilha e ao lamaçal dos poderes não sufragados Deixou como legado um pântano político e social, “refugiando-se”, para seu descanso, nos Refugiados da ONU, talvez para nunca mais assumir, neste país, qualquer cargo de relevância política. Assim o disse, recentemente numa entrevista à RTP.




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