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Memórias do Natal

Não sei muito bem como era nas outras províncias, mas no Marco de Canaveses, terra onde nasci, o Natal era a festa mais íntima e mais religiosa. Fazíamos um presépio com musgo, pedras e areia no início do mês de Dezembro e todos desejavam que chegasse a tão desejada ceia do dia 24. Era um dia diferente de todos os outros. Fazia-se o balanço de tudo quanto de emotivo, de triste ou de alegre houve durante todo o ano na Família. Acarinhava-se o futuro, vivia-se o presente e reparava-se no passado. Colhiam-se saudades, distribuiam-se esperanças. E as mães contavam, quando eramos pequeninos, tomando-nos as mãos, a história do menino Jesus que nasceu naquele dia para salvar o mundo. E depois beijavam-nos lembrando, certamente, o parto que nos fez nascer e acreditando que nós também seríamos salvadores.

José Carvalho
18 Dez 2012

E ainda hoje todos sabemos que o menino Jesus nasceu em Belém, que dormiu nas palhinhas aquecido pelo bafo de um burro e uma vaca e que depois vieram os reis magos, lá de longe, guiados por uma estrela. E esta história faz à maternidade um simbolismo lendário que a torna divina, uma religiosidade pura que a torna sagrada, uma grandeza tão secular que as faz rainhas, uma elevação que lhes dá altares, e um mistério tão profundo que nos faz a nós, tão pequeninos, grandes devotos do menino Jesus.
É por isso que as mães tomam as mãos dos pequeninos e nunca se cansam de lhes dizerem com voz de ternura: nasceu o menino Jesus, dormiu nas palhinhas e depois vieram os reis magos ajoelhar e dar presentes… não esqueças, meu filho. E ainda hoje, quando penso nesta história sinto uma pena enorme que o menino não tivesse, ao menos, um pano para se cobrir…
Recordo também, e com alguma saudade, a ceia em Família na casa dos avós com os tios, tias, primos, primas, irmãos, pais, etc.
Na minha meninice, e ao contrário de hoje em que sou pai e tio, não se trocavam muitas prendas. O convívio e as brincadeiras com os familiares eram bem mais importantes. A melhor altura desta noite era quando os avós contavam as suas já repetidas e conhecidas estórias, mas que não nos cansavamos de ouvir.
Era a noite em que se comiam os famosos bolinhos de abóbora, os sonhos e as rabanadas. O avô, por sua vez, aproveitava para ir colocando lenha na lareira e sentado num banco de madeira tosca fazia carrinhos de bois com as grossas cascas da abóbora. Era a noite em que o fumo da lareira inundava a cozinha e colocava toda a gente a chorar.
Era o dia em que se comia bolo-rei até não poder mais… à procura do brinde e da fava.
As poucas prendas que cada um recebia eram dadas pelo menino Jesus e não pelo Pai Natal. Hoje reconheço que, afinal, acabei por receber muito mais prendas do que todos os outros. As melhores prendas que recebi – e continuo a receber – eram estas: uns pais amorosos que cuidavam de nós com muito carinho e que ainda nos deram três irmãos para brincar, ajudar e fazer companhia.
Era a noite em que todos jogavam cartas, dominó e damas…
E, para finalizar tão linda e especial noite, rezavamos o terço em Família. O terço acompanhado por muitas vozes dos mais velhos e dos mais novos, que rezavam ao calor da lareira e sempre com a presença do menino Jesus.
Seria tão bom que os pais contassem as suas memórias do Natal aos filhos! E melhor ainda, parece-me, que este Natal de outros tempos pudesse ser recuperado por todos nós.
E, já agora, e à boa maneira de outros tempos que precisamos de recuperar: um Santo Natal para todos, com as maiores bênçãos do menino Jesus.

N. B. – Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo as normas do Novo Acordo Ortográfico.




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