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Deus nos dê paciência

Nos dias que correm é difícil não falar de política. Não tenho conseguido evitar isso. Mas, prometi a mim mesmo que, por algumas semanas, ainda não decidi quantas, vou tentar desviar o verbo para outros assuntos. Veremos se consigo. Nem de propósito, passar a certa hora, em determinado local da cidade, percorrido por inúmeras pessoas. Reparei, por acaso, numa dupla de responsáveis por coisas boas e menos boas, porventura algumas más, com que se faz a atividade autárquica. Foi assim:

Luís Martins
18 Dez 2012

Na última terça-feira, dia 11 de dezembro, eram cerca das 18:20 horas, atravessava eu a Praça da República, quando, ao cruzar-me com as pessoas que circulavam, para um e outro lado da superfície em causa, ouvi uma das proeminentes figuras da nossa praça dizer, para outra que a acompanhava, aquela frase que se utiliza quase sempre que estamos fartos de alguém ou de alguma coisa: “Deus nos dê paciência”. No caso, podia ser do superior, dos colegas, do presidente da Junta de certa localidade, podia ser de muita coisa, não sei. A frase foi conjugada mesmo no plural, sinal de que a segunda figura pública também estava envolvida no assunto. Final de dia de trabalho, alguma preocupação que não ficou no gabinete e ia a preocupar tais individualidades. Podem ficar descansadas, não ouvi mesmo mais nada a não ser isso. Ia com pressa e o assunto também não me dizia respeito. Certamente que não falavam de nada confidencial naquele espaço buliçoso e algo barulhento – o risco de que alguém percebesse seria mínimo, mesmo assim haveria algum risco – tanto mais que assunto sério não se trataria ali. Poderia ter sido um simples desabafo. Não sei, nem importa para o caso. Podia ser um pedido. A verdade é que não deixei de ouvir a frase que me inspirou e me ajudou a decidir sobre o que escrever. À noite, após uma breve conversa com um amigo, que me ligou, acabei por fechar o assunto.

A época pode inspirar outros comentários e é sempre saudável, sob o ponto de vista mental, nem que seja por pouco tempo, focalizar-nos em aspetos com que não nos detemos habitualmente. Ginástica mental, e não só. Imaginem que nos dizem que tudo vai bem por aqui, quando as coisas vão mal. Que esse discurso perdura no tempo, nos repetem constantemente a mesma coisa e que a perceção que temos da situação é o seu contrário. Há-de chegar um momento em que vamos não apenas pensar, mas falar alto – vão ouvir-nos seguramente a dizer alto e bom som – aquilo que nos diz o título: “Deus nos dê paciência”. Pelo menos isso, pois a frase pode ter outras variantes, outros acrescentos.

O pronunciamento da proposição ajuda a caracterizar um momento. Pode ser um simples desabafo, ou atingir grau mais grave, como quando a proposição é mais longa e se completa assim: “Deus me dê paciência para aguentar o meu chefe, porque se me der força eu trato dele”. Quando assim é, as relações de trabalho estão deterioradas. A coisa já é mais séria. Há bullying no trabalho, mais do que se possa imaginar. Um problema que não é de hoje.

Há dias que precisamos de muita e boa paciência. Vemos coisas que nos irritam e nos tiram do sério, como, por exemplo, fazer um trabalho com a maior das diligências, enviá-lo rapidamente pela hierarquia e verificar que a coisa simples passa por um, por outro e outro (e vão quatro) e depois desce a quem o produziu com a mesma lentidão com que subiu. Isto é burocracia que não acrescenta qualquer valor ao documento, que se lamenta pelo despesismo e inutilidade. Aguenta-se uma vez, outra e outra, depois cansa. Há limites para tudo.

Curiosa é outra frase que reza assim: “Deus me dê paciência e um paninho para a embrulhar”. Aqui paciência equivale a virtude que se deve preservar. A Bíblia fala-nos da paciência de Job, aquela que aguenta todas as contrariedades, a mais aconselhável, é certo, mas que não é para todos. Apenas para os mais fortes. Não a pratico, confesso, por ser muito exigente e necessitar de forças superiores que, infelizmente, não tenho.




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