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Converter as convertidas?

Pensei muito se deveria voltar ao assunto “Convertidas”, publicamente. Pensei no que foi aquela casa. Pensei no que presidiu à sua fundação. Pensei na sua estrutura interna, que conheço muito bem há muitos anos. Pensei no estado em que está. Pensei nos políticos que prometeram e, vergonhosamente, falharam. Pensei no quanto me empenhei num projecto que pretendia ser fiel aos fundadores daquela casa. Pensei no que vi na Vila do Porto (ilha de Sta Maria, Açores), numa terra pequena mas desperta para os problemas sociais e que, numa estrutura idêntica e com finalidades afins, recuperou, e devolveu ao uso das origens. Pensei nisto tudo e muito mais. E pensei em não mais voltar, publicamente, ao assunto. Quebrei esta quase jura de silêncio.

Carlos Aguiar Gomes
18 Dez 2012

Quem me conhece, sabe que sou, sempre fui, um interventor social. Sou de causas. E as causas que sempre me mobilizaram giram todas em volta da Vida humana e das Famílias. A causa das pobrezas ocupam, por isso, desde os meus dez anos de vida, muito do meu tempo e saber. Se se quiser, sou um político no sentido mais amplo e livre da palavra. Não me deixo agrilhoar por outros. Prezo muito a minha liberdade. Bem supremo. Há valores que defendo e nunca escondi as minhas opções, por mais politicamente incorrectas que os bem-pensantes achem.
Por isto que acabo de referir, não posso silenciar-me.
Penso que Braga merece, e já deveria ter há muitos anos, um Museu de Etnografia do Baixo Minho. Sou um defensor da nossa memória colectiva. Povo sem memória não vai longe. Infelizmente, como escreveu o Beato João Paulo II (Ecclesia in Europa), parecemos herdeiros que delapidaram o seu património! Defendo e sempre defendi o nosso património, material e imaterial (para quem não saiba, sou co-fundador do GEPA – Grupo de Estudos do Património Arcuense e fui director da sua revista – Terra de Valdevez). Por isso, saúdo o nascimento rápido de um Museu que exponha e proponha à reflexão e estudo o património etnográfico e popular de Braga, aproveitando o riquíssimo espólio do grupo Folclórico Dr. Gonçalo Sampaio. Num lugar digno dos fins a que se destina: preservar a nossa memória de forma dinâmica.

Penso que Braga merece uma Pousada da Juventude. Digna do público a que se destina. Moderna. Bem equipada. Central e acessível aos jovens que não disponham de meios próprios de locomoção. Que responda, com eficiência, aos jovens que nos demandam. O futuro, os jovens, merece o melhor!
Pensei nisto tudo.

Mas pensei se temos o direito de alterar as finalidades da fundação sem trair os fundadores!
Assim, volto ao que há mais de 10 anos, coloquei a quem de direito e tão torto decidiu/não decidiu, com a mesma cara!
As Convertidas não se devem converter noutra coisa que não seja voltar à sua vocação social de apoio aos pobres para que destinaram aquele edifício. Como cidadão engajado nas causas da Vida e da Família, não posso calar-me. É por isso e só por isso, que decidi não me calar.
Não sou Provedor dos Pobres! Mas os pobres preocupam-me e são eles que me levam a não me remeter ao cómodo silêncio. Esta situação, de abandono e de incúria, que se arrasta há décadas, revolta-me. Não represento, nem tenho mandato para tal, como já disse, os pobres. Mas sei o que esta casa poderia fazer por eles, muitos sem voz nem vez para clamarem por justiça. E sei que esta casa lhes foi destinada.
  A Capela, uma jóia entre as jóias do barroco, deve voltar MUITO RAPIDAMENTE à sua função cultural. Como se podem privar os bracarenses e os muitos milhares de turistas que demandam esta cidade de um espaço ímpar, de uma beleza única, mantendo fechado e a abolorecer? Como se pode permitir que a fealdade suja daquelas paredes exteriores conspurquem o nosso olhar? 

Por tudo isto tudo, venho a terreiro para que as convertidas não se convertam, numa conversão forçada, que lhes retire a sua marca fundacional.
Braga tem de ter o seu Museu. Merece-o.
Braga tem de ter a sua Pousada da Juventude. A cidade merece-a. Os jovens, exigem-na.
Braga não pode trair os seus maiores reconvertendo o que não pode nem deve. As Convertidas devem, urgentemente, voltar ao que foram durante 3 séculos: casa pobre para os pobres!




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