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Um governo democrático

Eu julgava que um governo verdadeiramente democrático era aquele que ouvia o povo, isto é, o que governava segundo o seu entendimento mas que conseguia emendar a mão quando visse e ouvisse a voz da razão popular. Popular que não populista. In medio virtus. Não é governar pelo povo mas governar para o povo. Isto assim, deste jeito, em vez de ser um governo fechado em si mesmo, autista, arrogante, incapaz de se desdizer quando a vontade soberana do povo assim o indicasse.

Paulo Fafe
17 Dez 2012

Mas enganei-me nos meus pressupostos porque o governo que se emenda, que corrija a sua trajetória, que é capaz de dar a mão à palmatória é apelidado de hesitante, ziguezagueante, impreparado, incapaz de perseguir um objetivo de governação. Pelos visto um bom governo tem de ser magister dixit, isto é, disse está dito, determinei está determinado, palavra de governo não volta atrás como era a dos reis, sentença de um juiz austero,  numa palavra incapaz de mudar as suas ideias. Enganei-me, contrito me confesso. Julguei que a democracia era mais elástica ou se quisermos mais capaz de admitir em si mesmo democratas que soubessem adequarem-se às circunstâncias e não tivessem a postura de estátua equestre, cavalo imponente que também pode ser burro, tão insensível como eles e tão animais como os conhecemos. O atual governo tem andado para trás e para a frente, tem dito e desdito, tem estado num pensamento e depois noutro, afirma e nega.  Vai governando de acordo com o que intui da vontade da onda de fundo. É, em conceito generalizado, pelo menos a nível de políticos ortodoxos, saudosos de governos ditatoriais mesmo que em democracia, um mau governo, débil e impreparado. O comportamento do atual , serviu-me de mote a este raciocínio. Mas  deixa-me  pensativo, quiçá interrogativo, procurando na perplexidade uma resposta  quando vejo que a maioria dos políticos advogam um governo firme em seus objetivos e incapaz de ceder terreno mesmo que verifique que se enganou no caminho. Isto por um lado. A este governo apelidam-no de arrogante e autista. Se o governo cede, se muda de opinião, então é um governo sem objetivos, de navegação à vista e incapaz de dizer o que quer. Por um lado a vereda é estreita, pelo outro lado, estreita é a vereda. Não há trilho largo. Por isso acho que qualquer governo, intrinsecamente democrático, deve governar a ouvir, a escutar a voz daqueles que sofrem no dia a dia efeitos das opções políticas. Segue em frente no bem geral, arrepia caminho pelo bem geral. E então digam-
-me lá: qual é melhor, emendar a mão ou continuar a persistir no erro só para dar um ar de que quem manda, pode? Arrotos de autoridade e bazófias de infalibilidade são traumas mal curados. Por mim vou naquele que é capaz de me ouvir e emendar-se e não pelo que como um asno  teimoso, como parece ser apanágio destes asininos, mete a cabeça e não cede a qualquer arreata. Se eu pudesse influenciar alguém, diria, prefiro um governo com dúvidas do que um governo que nunca se engana. A mão que se dá é melhor do que as costas que se nos viram. Esta é a caminhada.




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