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Qualquer coincidência é pura realidade!

É costume colocar-se em atitude de prevenção ao ouvir-mos: ‘qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência’… numa espécie de desculpabilização entre o que se pretende que é e a realidade que pode acontecer. Por isso, a titulagem do que pretendemos escrever: qualquer coincidência é pura realidade… numa denúncia de que há factos que, paradoxalmente, desmentem a realidade e que, por seu turno, há vivências reais que ultrapassam a realidade, mesmo a mais inventiva, democrática e até utópica.

A. Sílvio Couto
17 Dez 2012

Numa análise de coincidências e de pretensas realidades – algumas parecem mais fenómenos do que factos – poderemos interrogar-nos sobre situações ‘normais’ e de normalidades mais ou menos questionáveis.

– Que dizer das (mais) recentes afirmações do Presidente da Caritas nacional, quando refere que, se o ‘estado social’ – escrevemo-lo com letras em minúsculo pois o respeito encolhe perante as atrocidades vividas e/ou preanunciadas! – for negligenciado, passaremos a ter mais de quarenta por cento – diz mesmo que será  43 em vez dos atuais 17,9! – de pobres, em Portugal? Isso será realidade coincidente, ou, pelo contrário, manifesta uma coincidência da realidade? A quem interessa difundir tais números: a quem exerce o poder ou à oposição? Será que temos oposição sem poder ou, pelo contrário, poder sem oposição? Até onde irá a exploração dos ‘pobrezinhos’ por benfeitores engravatados – bem comidos e melhor falantes! – que se encavalitam na miséria, quais tortulhos crescendo do esterco? Até onde irá a ousadia de fazerem dos pobres uma espécie de etiqueta de lapela mais do que em sujarem-se – aspirando os odores mal-cheirosos dos que não se lavam por deficiência económica! – nas vielas e nos hálitos da falta de dignificação?
Qualquer coincidência é pura rea-lidade à nossa porta, na nossa terra e neste país de (pretensos) ricos e maus pagadores!

– Que dizer dos discursos ‘inflamados’ de políticos e autarcas, deputados e vereadores – vestidos com roupas de marca e com perfumes de ocasião solene! – em defesa dos mais pobres, mas que só atendem, preferencialmente, os seus apaniguados? Para quem vão os cabazes de Natal? Um maltrapilho poderá ainda entrar no role dos atendidos? Quem for de cor política diversa dos atendedores terá lugar na listagem a ser beneficiada? Será que a fome tem rótulo e preenche os requisitos dos mandantes?
Qualquer coincidência é pura rea-lidade a começar à nossa porta, na nossa rua e neste país de (pretensos) ricos, maus pagadores e difusores de novos e incontáveis pobres!

– Será que os discursantes em comícios e em congressos – mesmo de partidos (ditos ou auto-apelidados) defensores da classe operária, dos trabalhadores e dos mais pobres – sabem o preço das coisas nos mercados e nas mercearias? Será que sabem quanto vale o café ou o pequeno-almoço tomado fora de casa em comparação com um simples litro de leite? Será que lhes têm oferecido oportunidades de conhecimento dos custos ou preferem fazer demagogia com os gastos?
Qualquer coincidência é pura realidade dentro dos nossos espaços de convívio, na nossa terra e neste país de (pretensos) ricos, maus pagadores, difusores de mais pobres e manipuladores de consciências fragilizadas!

– Até onde irá a camuflagem em certos setores da Igreja católica para que não se afirmem e que se assumam como uma das forças mais representativas do combate à pobreza em Portugal? Quem tem medo de dizer a verdade: será que é por nós temermos que nos fechem a torneira dos subsídios e que venham a tornar as nossas instituições inviáveis? De pouco importa o que nos dão se nós não tivermos meios de sobrevivência: teremos de continuar mudos e cúmplices? Teremos de calar certas injustiças e (pretensas) manipulações?
A realidade é mais profunda do que uma simples coincidência, por isso, precisamos de criar uma corrente de fraternidade onde, quem faz algo pelos outros, não tenha de mendigar o que se lhe deve por justiça nem que nos calem pelo medo só porque o ‘estado social’ está em colapso e nós podemos cair a qualquer momento. A realidade faz da coincidência uma aspiração de mais alto, de mais além e de mais cristão… para além do Natal!




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