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Porque diminuem as Confissões? (4)

(Continuação do artigo anterior)
1 Para o bem ou para o mal, talvez o agente mais influente de mudança de costumes seja a televisão. Como os programas de televisão não têm fronteiras nem são ideologicamente indiferentes e cada operador escolhe aquilo que lhe convém passar em função dos seus interesses, o espectador, se não tiver a cultura e a maturidade suficientes para fazer o seu juízo, as suas comparações e as suas escolhas, de acordo com os seus valores, fica à mercê dos que souberem ser mais apelativos.

M. Ribeiro Fernandes
16 Dez 2012

Talvez não seja exagerado dizer que nenhum programa é ideologicamente ingénuo. De forma mais explícita ou mais latente, há uma opção ideológica que se pretende fazer passar. Grupos políticos, grupos de interesses, grupos ideológicos todos condicionam os programas de acordo com as sus conveniências. Nesse sentido, a educação para a maturidade cívica e crítica devia ser considerada indispensável.

2. Na área da Igreja, talvez a maior falha dos responsáveis tenha sido não se preocuparem com a maturidade do povo e com a formação de opinião. Mas, verdade se diga que, mesmo que tivessem tido essa preocupação, ela não iria produzir efeitos enquanto não houvesse mudanças no funcionamento da Igreja. A convicção geral é que, como escreve José Manuel Fernandes, no Jornal de Vieira, enquanto o laicado se sentir menorizado e depender do clero nos termos em que está, as coisas não vão mudar muito e a crise tenderá a arrastar-se e agravar-
-se. As pessoas sentem necessidade de serem reconhecidas pessoalmente e de se exprimir. É significativo o crescimento de 2,8% dos grupos evangélicos, registado no Censo de 2011, embora haja muito a refletir nos seus métodos. A Hierarquia da Igreja devia pensar nisso.
É preciso alargar ao povo a ação das escolas católicas e valorizar o potencial de tantos jornais locais de comunidades cristãs, de modo a que o tipo de jornalismo se não fique apenas pelo género de boletim religioso e visem ajudar os cristãos a formar a opinião. Sem defesas culturais, o povo fica à mercê das leis da motivação, cujo aproveitamento também não é ingénuo. 

3. Há um aspecto em que a prática da Confissão se pode ter desvalorizado a si mesma: tradicionalmente, o pecado era (ou é) apresentado como uma desobediência de carácter legal e não como uma infidelidade pessoal ao amor de Deus, do qual é indissociável o amor ao próximo. O pecado tinha (tem?) apenas uma dimensão legalista, significava apenas o não cumprimento de uma lei, a “lei de Deus”.
Para além de se assumir como um tribunal, o tribunal da Confissão, impunha penas por incumprimento dessa lei. E, de modo geral, essas penas continham (contêm?) um erro básico: impunham-se orações como castigo (vai rezar tantos padre-nossos e tantas ave-marias…), o que significa propor a oração como pena, negando-lhe o sentido de diálogo de fé e de amor com Deus, sem o qual não se compreende a reconciliação. Quer dizer, não se valorizava a fé como uma atitude de amizade e de confiança em Deus, nem a oração como um diálogo íntimo de fé. Daí, a desvalorização das penas da Confissão e as muitas anedotas que se foram criando a esse respeito.

4. Outra causa de afastamento de muita gente das Confissões pode ter sido por haver confessores que optaram por um modelo bastante diretivo e inquisitivo. Esse estilo de confissão faz com que as pessoas se possam sentir agredidas na sua intimidade. Havia (ou há?) confessores que se comportavam mais como um inquiridor (às vezes, quase a roçar o voyerismo mental, em matéria de sexualidade) do que um humilde irmão na fé que acolhia os penitentes. A Confissão deve ser espontânea. A espontaneidade é condição para uma libertação interior, sentimento que é humanamente indissociável do arrependimento e da mudança de vida. Tal como o psicoterapeuta, o confessor deve ter sensibilidade e arte para tocar nos delicados mistérios da alma sem a agredir. Saber ouvir, saber estar presente, sem julgar, sem ralhar autoritariamente como se fosse um ser superior, saber acolher, saber ter uma breve e sentida palavra de compreensão e de encorajamento. Só o amor convence e regenera.
Claro que esta atitude tem a ver com uma vasta área de matérias que vão desde o estilo de personalidade até à sua qualidade relacional, à sua formação profissional e técnica. É preciso carisma pessoal e preparação técnica profissional.

(Continua)




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