Fotografia:
Outro Ponto de Vista…

“O cinto cada vez mais largo, mas nunca arrependido”Liu Yong
No dia da entrega do Nobel da Paz, aproveitei para ler algumas notas publicadas de Liu Xiaobo, prisioneiro de consciência nos cárceres do regime de Beijing e Nobel de 2010 e, ao ouvir o atual presidente do Conselho da União Europeia, referir-se às saudades dos idos anos das liberdades de rua de 1974, senti laivos de vergonha.

Acácio de Brito
14 Dez 2012

O que me valeu foi interiorizar o sentido da afirmação do poeta da dinastia Song quando reflete o total desprendimento e desinteresse pela vida mundana e seus prazeres. Não obstante a amargura nos poder tornar mais fracos e emagrecidos [o “cinto cada vez mais largo” exprime a ideia de emagrecimento do seu corpo], mas sem que por tal sinta arrependimento, pois vale a pena sofrer pelo que se acredita.
E, neste processo de reminiscências, trago à colação um trecho que escrevi sobre a corrupção, porque o espaço da União Europeia não é merecedor de ombrear com Liu Xiaobo…
“Era uma vez…
Um dia, um amigo meu, que exercia um mandato num órgão de administração local, na qualidade de presidente, confidenciou-me a sua profunda mágoa pela falta de consideração de alguns que propalavam a todos os cantos que, nesse campo do poder local, era o espaço lodoso onde proliferava toda a corrupção. E adiantava, com pesar, contando alguns exemplos de outros casos bem longe do poder local, que, aí sim, eram de verdadeira pouca-vergonha.
Sem grande esforço, percebemos, que a verdadeira corrupção não é só aquela que implica o suborno, a compra, mas a que corrompe pela sua ação os valores de uma sociedade.
As normas e regras existem, não só para ser formalmente cumpridas, mas sobretudo para serem entendidas que o seu não cumprimento lesa profundamente a nossa vivência societária.
Impressiona-nos de modo e verificação empírica quando constatamos que anteriores responsáveis políticos com responsabilidades na gestão pública, sejam hoje presidentes de empresas, com as quais negociaram acordos em nome do Estado, que conferem às mesmas prerrogativas inaceitáveis.
Dizem-nos, mesmo, que contratos de tal modo celebrados são juridicamente blindados. Inatacáveis!
Neste exórdio recordo, porque não (?), as palavras do Prof. Adriano Moreira que referindo-se a Salazar aquando da negociação da cedência da Base das Lajes por altura da II Guerra Mundial aos Aliados, disse: A Base das Lages fica para os Aliados, quanto ao resto do território, fica neutral. Imbróglio jurídico diziam, respondia Salazar é assim e assim foi!
Tudo feito com estatura de homem parte de uma elite que manda! Homem com sentido de estado!
Sem contrapartidas ou negociatas.
Pelo interesse nacional.
Hoje, no Portugal democrático e europeu, tudo é diferente.
Causa estranheza a ligeireza das decisões. Mais, incomoda-nos como é que alguém que decidiu enquanto ministro em áreas sensíveis, posteriormente, desempenhe funções de direção em empresa do mesmo âmbito.
Achamos, mesmo, uma pouca-vergonha o que vem transcrito em jornais que mostram, como alguns pensam que o Estado é um espaço interessante para fazer negociatas.
Óbvio que o meu amigo tem razão…
Mas feitos com sentido de estado e europeus como convém em senhores que se auto-intitulam de uma elite.
Antes fossem, mas elite verdadeira, do pensar e do agir.
Elite de referência!
Contudo, não confundamos a árvore com a floresta, mas por este andar e com a falta de vergonha que alguns dão mostra um dia destes a norma é ser artista da vidinha.”
Pobre sina a nossa, da nossa Europa Nobelizada!




Notícias relacionadas


Scroll Up