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Genealogias de pessoas comuns

1 – Quem somos e donde somos, realmente?). Esta é uma pergunta, um exercício que costumo pôr regularmente a mim próprio. E que proponho a todos os que lerem este meu trabalho. Hoje, nasce-se com frequência nas grandes cidades e vilas da costa, embora muitos de nós tenhamos raízes noutros pontos do País, às vezes mesmo todas as raízes. Ou até noutros países e noutros continentes. Cada um de nós tem uma dignidade muito especial, que é dupla. Em 1.º lugar é a de sermos representantes, no momento presente, da espécie humana (não o éramos há anos atrás, por nem sequer sermos nascidos e já não seremos daqui a décadas, por já termos morrido).

Eduardo Tomás Alves
14 Dez 2012

Em 2.º lugar cada um é o herdeiro (as vezes até, o único) de muitas, imensas gerações de seres humanos de outros séculos e lugares, que já ficaram para trás e que provavelmente olham para nós com imenso amor, romantismo e preocupação. E nós inversamente para eles, pelo menos eu. Só tenho pena de não os conhecer… Além disso, apesar de nascermos em Braga, no Porto ou em Lisboa, não somos apenas dessas capitais, mas também das terras donde vieram os nossos antepassados. Eu penso que daí vem parte do fascínio de conhecermos a nossa genealogia.

2 – Investigar a própria genealogia sem preocupações nobiliárquicas). Outrora só se procuravam os antepassados com o fito de fazer a ligação a alguma pessoa nobre ou doutro modo ilustre. Daí que até havia quem forjasse falsas genealogias, inclusive para “provar” que não tinham sangue de judeu, ou para esconder pais incógnitos ou de outras raças. A antiga ideia da “limpeza de sangue”, como indispensável ao exercício de cargos públicos (vigente na Idade Média e Moderna até ao tempo do Marquês de Pombal), apesar da sua inspiração absolutista, jesuítica e inquisitorial, não deve ser totalmente descartada no Portugal decadente do presente. É que a mentalidade antiga levou-nos a ser donos do Brasil e de boa parte da África. E a atual, à bancarrota e ao perigo de perda da própria soberania, só isso…

3 – A geografia da minha genealogia pessoal). Para termos uma ideia “de onde vem a nossa família” teremos de recuar aos lugares onde nasceram, casaram, viveram os nossos bisavós e trisavós (e daí  para trás, se fôr possível). O meu sangue minhoto é pouco mas está provado, pois um dos meus tetravós, João Nepomuceno de Sousa, era natural de Outiz (nesse tempo, de Barcelos, hoje de Famalicão) embora tendo morrido no Rio de Janeiro. Para simplificar, porém, reportemo-nos apenas à naturalidade  dos meus 16 trisavós, por concelhos. Do lado do meu pai, 7 eram naturais de Oliveira de Azeméis e uma do Rio de Janeiro (embora seus pais fossem de Barcelos). Da parte da minha mãe, 4 são de S.ta Maria da Feira, 2 de Coimbra e 2 de Santarém. Sou pois basicamente um homem do norte da Beira Litoral, embora nascido em Sto. Ildefonso, no Porto. A par disso, tenho a sorte de ter fotografias dos meus 8 bisavós. E de 4 dos meus trisavós (inclusive um vítreo daguerreotipo de 1860). E de dois dos meus tetravós; uma das fotos é de 1873.

4 – As origens familiares de José Afonso, Salazar e F. Pessoa). Excelente ideia a da editora Temas e Debates (Círculo de Leitores) ter acompanhado as fotobiografias de Salazar, Pessoa, Almada e Afonso, das respetivas árvores genealógicas, na última página. Comecemos por esse “cometa da Providência” que foi o dr. Salazar, nascido duma mãe com 44 anos. Da parte do pai, ele é quase só de Sta. Comba, Tondela, Tábua, Carregal (e F. de Algodres). Da parte da mãe (que tinha o nome premonitório de Mª do Resgate Salazar) também é da mesma zona, extendida a Penacova. E também de Santo Tirso, através do seu trisavô Manuel Francisco Coimbra (n. 1732), cujo avô, Bento de Babo, era de Amarante (Travanca). Note-se contudo, que o apelido Salazar tem origem na Espanha (há um vale com esse nome no oeste dos Pirinéus).
José Afonso tinha algumas parecenças físicas comigo e nasceu em Aveiro. Porém não tem pinga de sangue local. A mãe era por inteiro da verdejante Ponte de Lima, com exceção de um bisavô dela, que era de Constance (Penafiel). Já pelo lado do pai era de bom sangue do Fundão e de Tortosendo (Covilhã), com uma pinga de Castelo de Vide. Fernando Pessoa, cujo talento eu não admiro muito, tinha origem geográfica muito variada, sendo além disso descendente de judeus e aristocratas. Do lado da mãe era principalmente dos Açores, com misturas do baixo Tejo, Compostela (Galiza), Ourém, Alcobaça, Sta. Comba, Nelas etc.. Da parte do pai é de Lisboa, Faro, Lagos, Fundão, Tavira, Serpa, Mac. Cavaleiros, Bragança, Arouca, Porto, Feira, Sabugal etc.. Talvez seja esta confusão que gerou os famigerados heterónimos…




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