Fotografia:
A Autotranscendência Humana, Fundamento da Esperança e da Crença em Deus

Vou tratar este assunto de uma forma muito crua. A este tema vou selar-lhe o nome de tese. A tese, como todos sabem, é uma afirmação considerada verdadeira, contudo carece de uma justificação e as suas palavras pedem uma definição clara e breve, a fim de afastarem possíveis colisões. Como, graças a Deus, toda e qualquer atitude ou posição não passa, neste mundo, sem o debate ousado, nervoso e emotivo dos antagonistas, vou chamar para aqui a sua presença. Quem são eles? São todos os que se envolveram na interpretação, boa ou má, da autotranscendência humana.

Benjamim Araújo
12 Dez 2012

A intenção que me espicaça neste envolvimento é esta: libertar a Antropologia dos gases tóxicos,
doentios e mortíferos e oxigená-la com os ares saudáveis das florestas, com os ares límpidos dos campos, com os ares dos rios, bordados de salgueiros, choupos e chorões e com os ares das serras altas, nevadas e puras.
Atendendo às interpretações sobre a autotranscendência, vou tirar da prateleira, que me está mais à mão, as interpretações apresentadas pelos existencialistas, entre os quais vou citar Jaspers e Marcel.
De um modo geral, o existencialismo afirma que a nossa existência (o fora de si) é a manifestação do “em si” Ao afirmar que o “em si” supera a existência, põe a autotranscendência no “em si”. Jaspers consciencializa-se da sua autotranscendência quando auto-supera a sua dor, a angústia (estados próprios da sua existência). Do mesmo modo, Marcel toma consciência da sua autotranscendência, quando auto-supera a sua inquietação e angústia.
Agora vou tirar de outra prateleira as interpretações da responsabilidade dos materialistas ou marxistas, entre os quais Marcuse, Garaudy e K. Popper.
A conceção generalizada do materialismo é a de que o homem é manifestação da sua materialidade, sendo que esta o supera, o transcende. O homem será tanto mais homem, quanto mais evoluir na sua materialidade. O homem manifesta-se na ação, que o supera, que o transcende. Até o espírito do homem lhe vem da sua materialidade. Segundo Popper “nós continuamente nos transcendemos. Transcendemo-nos a nós mesmos, aos nossos talentos e às nossas qualidades. Autotranscendência é o facto mais importante da evolução humana”.
Deitei, depois, os olhos para uma outra prateleira e encontrei lá, a respeito da interpretação deste tema, alguns pensadores católicos. De um modo geral, diz B. Mondim, estes pensadores interpretam a autotranscendência como uma propriedade essencial do ser humano e como o último fundamento da sua espiritualidade e sobrevivência depois da morte. Entre os vários pensadores nesta linha, vou mencionar Blondel. Maurice Blondel evidencia a autotranscendência sobretudo no ser, no pensar e no agir do homem. Afirma: “no ser do homem há uma antinomia profunda entre o que é e o que deveria ser. Há um profundo desequilíbrio entre a vontade que quer e a vontade querida”.
Em todas as interpretações mencionadas há uma lacuna na dimensão holística da autotranscendência.
Os existencialistas encarceram a autotranscendência na prisão do “em si”. “Assassinam-na”.
Os materialistas limitam a autotranscendência à materialidade, à ação, ao espaço e ao tempo. “Destroem-na”.
Os pensadores católicos, em vez de fundamentarem a energia da autotranscendência na corporalidade espiritualizada do nosso ser ôntico, fundamentaram-na na espiritualidade da alma. “Afogaram-na”.
 Qual é o significado da autotranscendência? Com “auto” pretende-se significar que a transcendência nos é imanente. Com “transcendência” queremos significar “a superação, o movimento, o ultrapassar-se a si mesmo”.
Vou, agora, pelo espaço inter-estrelar, fazer uma viagem na holística da autotranscendência. A rampa de lançamento está localizada no nosso físico com a sua forma peculiar – a verticalidade. O termo da viagem é o transcendente. É Deus, como o Ser implícito em todas as autotranscendências. É Deus, como Ser Ôntico Absoluto.
Eis a viagem: O nosso físico, com a sua forma própria, manifesta o organismo bio-psíquico. Mas o organismo psíquico supera-o.
O organismo bio-psíquico manifesta o corpo e a alma. Porém, o corpo e a alma superam o organismo bio-psíquico.
O corpo e a alma, na sua união e sintonias íntimas, manifestam a nossa natureza ôntica. Contudo, a natureza ôntica supera o corpo e a alma.
A nossa natureza ôntica manifesta e exige o transcendente (Deus). Mas o transcendente supera a nossa natureza ôntica.
A autotranscendência, através da sua imanente espiritualidade materializada e através da sua abertura e exigência progressiva de ajustamento à verdade, é o fundamento real e objetivo de toda a esperança positiva e do conhecimento da existência e do Ser de Deus.




Notícias relacionadas


Scroll Up