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Nada como dantes e tudo na mesma

Nunca tanta informação esteve acessível, atualizada e documentada como nos dias de hoje. Nunca como hoje, tanta gente teve acesso à produção de informação. A quantidade não é acompanhada pela qualidade, como todos sabemos. Mas, atualmente, existe uma torrente inesgotável que se infiltra da inofensiva livraria ao espaço virtual da net. E nem se trata da velha polémica sobre “o que tem qualidade” ou “quem é quem” para se arrogar o direito de a definir e de classificar umas coisas como a tendo, e outras não. Na verdade, essa polémica parece tende a desaparecer do domínio público por cansaço e desinteresse. O espaço da crítica é cada vez mais o da cotação por número de estrelinhas, sem complicar pelo uso de critérios abstratos e de referências.

Pedro Freire de Almeida
11 Dez 2012

A ausência da polémica e da crítica não implica, evidentemente, a ausência de confronto e disputa. Confronto já não de ideias e projetos, mas de posturas e de feitios, em que a graçola e o insulto são as figuras de estilo comuns. Culpa dos media? Talvez por necessidade de acompanhar as tendências. Não só as tendências da moda, mas a do gosto dominante das audiências. Simplificando, claro.
Noutros tempos, falava-se na trilogia Fado, Fátima e Futebol, que era como quem diz: muita emoção e nenhum sentido crítico. Mais “F”, menos “F”, a emoção mantém-se à superfície dos confrontos da disputa política. Culpa dos políticos? Talvez por não verem recompensados os discursos de rigor e a ausência de promessas. Talvez porque o espírito cívico dos eleitores se dê mal com o excesso de regulamentação e o abandono do espaço público, tendências favorecidas pelo anonimato dos moradores e pedestres nas ruas e praças da cidade, e pelo zelo da igualmente anónima máquina burocrática que rege as vidas de todos nós.
Cedendo a rua ao vandalismo sem rosto e ao império da normas regulamentares, o pedestre anónimo passa pela rua talvez indignado, mas sem assumir responsabilidades, nem ousar pedi-las. O protesto, quando acontece, é um grito de desabafo, o aligeirar da consciência. Culpa dos cidadãos? Talvez por serem tolhidos pela teia de normas e procedimentos com que o Estado amortece o alerta cívico, quando se atrevem. Talvez porque a Vida ensine que “manda quem pode, obedece quem deve”. Talvez porque o problema seja, essencialmente, um problema dos outros e a esses é a quem compete resolvê-lo.
Criticava-se, no passado, o autoritarismo das instituições, a começar pelos bancos de escola com seus programas rígidos, sem adaptação à criatividade infantil e à sede de descoberta da juventude. Hoje critica-se o facilitismo dum ensino indiferente ao mérito e à qualidade, dominado pela burocracia dos gabinetes centrais e esquecido da sua missão intemporal. Culpa da Escola? Talvez por não ter os pais dos alunos a exigir mais, começando por casa. Talvez por sofrer o mesmo anonimato das ruas. Talvez por sofrer igual zelo de máquina burocrática.
A culpa são tantas culpas e todas morrem solteiras, apesar de se apontarem a dedo a este e àquele. Sem se fazer jamais um mea culpa, sinal de fraqueza que provoca risos e desclassifica quem assim se oferece ao escrutínio público.
Mas quem não se consola lendo excertos das “Farpas”, escritas no último quartel do séc. XIX, onde tudo que é tipo humano, tara coletiva nacional ou chaga legislativa foi descrito com rigor e atualidade? Como se a ignorância da História nos condenasse a vivê-la de novo, cultivando a perversa satisfação da autodepreciação. E, quando confrontados com ela, mudamos de assunto à semelhança de quem muda de canal, porque demasiado cansados para assistir a um filme “sério”.




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