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Governar nos limites

O ano de 2011 foi o que foi. Disse-se que a culpa foi do orçamento socialista. Na altura, a promessa foi que, da vez seguinte, com um orçamento da autoria da nova maioria, os resultados apareceriam. E apareceram. O problema é que não foram os que nos disseram que seriam. É verdade que o ano ainda não terminou, mas todos os meses nos temos apercebido do sabor amargo de sucessivas medidas não previstas e que até estavam afastadas, de todo, da boa prática governativa, de acordo com o discurso oficial, a começar pelo principal responsável do Governo. A prática tem destoado do discurso de então. Governa-se à bruta, nos limites. Para se ser justo, ultrapassam-se até os limites.

Luís Martins
11 Dez 2012

A verdade indesmentível e parece que incontrolável – o Governo fica boquiaberto sempre que são publicadas as estatísticas oficiais – é que o desemprego continua a aumentar, sem que nada de realmente importante se faça para o combater. A prioridade tem sido e só a austeridade. E assim não vamos lá. Ficamos cada vez mais longe. Cada vez mais incapazes de debelar o flagelo que sempre foi uma preocupação dos vários governos desde a revolução de Abril. Nunca antes se tinham atingido os valores que hoje são uma realidade e que continuarão a ser, atento o alinhamento das medidas tomadas até ao momento.

Com o desemprego, aumentam os níveis de pobreza, sendo certo que estes já dão sinais de se arreigarem mesmo em pessoas que têm trabalho. Não falta muito para haver ruptura social. A corda está já demasiado esticada. A qualquer momento pode mesmo rebentar, o que será uma catástrofe. Há limites, todos sabemos. O Governo também sabe, embora às vezes pareça que não. Fico apreensivo quando ouço falar num corte de quatro mil milhões de euros e que a solução será sacá-los ao Estado social.

Um governo não pode fazer tudo o que lhe apetece. Há limites que não deve ultrapassar por não estar mandatado para tanto. O voto do povo deve ser respeitado e, que saibamos, os resultados das últimas eleições não permitem excessos desses. Vou ser repetitivo, mas estou por perceber se as gorduras da máquina do Estado – dos institutos, das fundações, das empresas públicas desnecessárias e que dão prejuízos ano após ano – já foram derretidas. Se ainda não foram e existem, quando se voltará o Governo para elas? É que não pode deixar de lhes tocar antes de decidir cortar no Estado social. Manda o bom senso e a equidade social. Se o não fizer, vai ser muito arriscado. Muito mais do que já tem sido.

Cuidado, mexer em áreas sensíveis exige muita ponderação e respeito. Se o Governo deixar de o fazer mete-se numa alhada. E a nós também. Bom, já se tem metido. Acontece é que alguma coisa é esquecida ou relevada, outra menos, mas a tolerância tem limites. O Governo pode optar por continuar a prosseguir a caminhada sugerida pelos mercados, mas também tem de perceber que a quietude destes pode ser conseguida à custa das pessoas e o país se confrontar, seriamente, com uma ruptura social. Pode-se governar nos limites, porque tem de ser ou porque se quer. Se o motivo for este último, então deixa de haver respeito e o povo desrespeitado não vai acolher nem aceitar.

Polifonia no Governo
Sabemos o que Seguro disse à troika. Portas também escreveu, o que já não se compreende. A não ser que lhe tenha dito para não acreditar naquele ou para não o levar a sério. Noutra frente, ficou um recado. Será que Portas pediu à mãe para dizer cobras e lagartos do Ministro das Finanças para deixar mal o primeiro-ministro? Mas a polifonia desentoada tem integrado outros coralistas noutras circunstâncias.

Silêncios e omissões do Presidente
O Presidente deixa-nos às vezes atónitos. A ameaças veladas seguem-se omissões prolongadas. Incompreensíveis as últimas e inconsequentes as primeiras. Se o Presidente avisa e ninguém atende ao que diz, é desrespeitado. Se o Presidente não concorda, mas promulga, não se respeita. Na qualidade de último garante da democracia, desrespeita o povo.




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