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Porque diminuem as Confissões? (3)

Deixando de lado a discussão técnica se as pessoas ficam ou não ficam deprimidas por não terem possibilidades de se confessar, o que me parece importante realçar nessa afirmação é o sentimento de tranquilidade que é percebido na relação pessoal da Confissão e que exprime humanamente a convicção íntima do perdão dos pecados. Quer dizer que, nessa perceção, a experiência humana alcança um novo significado e que as duas dimensões acontecem juntas. Aqui pode estar a manifestação do sinal sacramental de perdão de Deus mediado pela ação humana, consequente do facto da incarnação de Jesus.

M. Ribeiro Fernandes
9 Dez 2012

Para além de anúncio, o Natal também como um sinal de reconciliação. Isto mostra como a experiência humana deve ser entendida e valorizada. É aquilo que se pode designar como o valor divino do humano. Há (ou houve?) uma conceção sacramentalista que desvalorizava a ação humana e quase a mecaniza, sem prestar o valor devido à sua qualidade e vivência. É um erro, porque só pela vivência do humano se pode descobrir a sua transcendência como sinal do divino. Esta mediação, a relação penitente/confessor ou assembleia de fé/presidente da mesma que dá a absolvição em conjunto, tem uma importância psicológica própria que precisa de ser devidamente reconhecida, analisada e valorizada, sobretudo nos tempos de hoje.

1.Porque diminui, então, a prática da Confissão (e, por Confissão, entende-se aqui todo o processo que se designa hoje por Sacramento da Reconciliação)? Por variadas razões. Vamos enumerar algumas. Entre elas, a mais óbvia, no atual modelo cultural, é a que deriva da diminuição progressiva do clero: se o clero for diminuindo e até dedicando o seu tempo a outras atividades, logicamente a disponibilidade de confissões também diminui. Mas, essa falha pode mostrar também o calcanhar de Aquiles do sistema histórico de gestão da Igreja, que se foi baseando cada vez mais e apenas no clero, como qualquer outra religião natural (e o cristianismo não é outra religião natural qualquer).
Independentemente do número, outra causa relevante, à qual não se tem prestado a devida atenção, tem a ver com a qualidade de relação pessoal, com o carisma ou falta dele no confessor. Sendo a Confissão uma forma de intimidade pessoal, ela também poderá ser afetada pela falta de carisma do confessor, por rejeição da pessoa. Não se pode esquecer a dimensão psicológica da Confissão e que essa requer qualidade pessoal e preparação técnica adequada.

2. Outra causa é, naturalmente, a erosão da imagem da Confissão por parte da ação que se costuma chamar por “laicismo”, que é uma forma ideológica de atuação cultural e social discordante da Igreja. Aqui, não se pode ignorar que o laicismo é, historicamente, uma reação ao clericalismo. Se não tivesse havido clericalismo, teria havido laicismo? O facto é que, entre o clericalismo e o laicismo, está o Povo. Só o Povo pode optar por uma das partes, em função da descoberta da sua bondade. É por isso que, em termos cristãos, não faz sentido esta relação de hostilidade. O cristão está para dar testemunho da verdade e da esperança. A Igreja não pode estar contra o mundo, porque o mundo é o mesmo para todos os homens, tenham ou não tenham fé. Se o povo descobrir nesse testemunho a força da esperança, vai aderir a ele e à mensagem que dele decorre.
Nesse sentido, não concordo com a atitude do porta-voz da Conferência Episcopal, quando ainda há dias dizia que “o laicismo, a secularização e relativismo têm conquistado terreno à vivência da fé em Deus”. Será que têm conquistado terreno ou tem perdido terreno porque o seu testemunho não atrai as pessoas?

3. Outro factor decisivo da diminuição da prática da Confissão terá sido a valorização cultural da corporalidade e da sexualidade e a maior consciência positiva da mesma, com o consequente esvaziamento de muitos aspetos como pecado (o pecado mais frequente e mais valorizado era o da sexualidade, às vezes, com manifestos exageros, que a Moral tem de rever). Isso também contribuiu para que a consciência de pecado se tenha deslocado bastante da sexualidade para a caridade, a justiça, a solidariedade.
Também a influência social e cultural das migrações é relevante: as comunidades vão-se aculturando a novos costumes, a novos padrões de vida, comparando-os com aqueles em que cresceram e valorizando aqueles que apresentam maior capacidade económica, condicionados como estavam a uma forma de cristianismo sociológico. Como a sua cultura religiosa era rudimentar, pouco mais do que de manutenção de massas, de festas e procissões, tiveram dificuldade de resistir aos novos apelos. No mundo sem fronteiras em que vivemos, a questão de formação cultural e de valores em que acredita têm um peso definitivo.




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