Fotografia:
Fotografando o sofrimento dos outros

A cena é esta: após ter sido empurrado para o carril do metro, um homem tenta subir para a plataforma. Está absolutamente desesperado porque o metro se aproxima veloz. Vai colhê-lo. Ninguém o ajuda a escapar à morte certa. Nestas circunstâncias, o que deve fazer uma pessoa que se encontre com uma máquina fotográfica? Ajudá-lo? Não querendo ou não podendo ajudá-lo, é lícito que o fotografe? Há alguma regra – ética, moral… – que imponha que não se retrate um homem que sofre porque não consegue escapar à morte? Há algum limite que se deve impor à captação de certas imagens?

Eduardo Jorge Madureira Lopes
9 Dez 2012

Ki Suk Han foi o homem que morreu colhido pelo metro. Umar Abbasi foi a criatura que o fotografou poucos instantes antes da morte. Porque é que ele disparou a máquina fotográfica? Abbasi diz que pretendia avisar o condutor do metro com os flashes. Sendo assim, porque é que uma das fotografias foi parar à primeira página da edição de terça-feira do diário The New York Post?

As ima­gens foto­jor­nalís­ti­cas de tragé­dias são, muitas vezes, objecto de intensas controvér­sias. O cerne das dis­cussões prende-se, sobre­tudo, com saber o que pode ou deve ser mostrado. Como diversos jornais portugueses – o Correio da Manhã e o Público, por exemplo – noticiaram na semana que finda, a polémica instalou-se de novo. Contava o Público que a pub­li­cação e trata­mento das ima­gens provocaram uma onda de críti­cas recrim­i­natórias ao jor­nal, “que foi acu­sado de mau gosto e de ter ultra­pas­sado os lim­ites da ética jor­nalís­tica”.

Durante uma das edições do Fes­ti­val Visa pour l’image, que, em França, é um dos pal­cos privile­gia­dos dos debates sobre as ima­gens jornalísticas, a ensaísta Susan Sontag polem­i­zou com o sociólogo Jean Baudrillard, a quem criticava por encarar o tra­balho dos fotojornal­is-
tas de um modo super­fi­cial e por, com a sua teoriza­ção do simulacro (o real não existe, tudo é simulação), sugerir, de modo perverso, que não há um sofri­mento real no mundo. “Eu nunca disse que o acontecimento não existe; do que eu duvido é do modo como ele é representado”, respon­dia Baudrillard.

O tra­balho dos foto­jor­nal­is­tas é “extrema­mente ambíguo”, dizia ele numa entre­vista ao diário Le Monde: “Eles estão den­tro e fora do acontec­i­mento. Eles estão a pri­ori solidários com as víti­mas, mas o seu lugar nat­u-ral é do outro lado, onde estão os que olham e deixam andar. Eles são irre­spon­sáveis no sentido em que não têm qual­quer intervenção. A sua irrespon­s­abil­i­dade está próx­ima da do con­sum­i­dor de fotografias. Eles estendem às víti­mas o espelho da sua angús­tia antes de enviar a imagem para o ‘outro lado’ para ser com­er­cial­izada e con­sum­ida”.

E é este “outro lado” que tam­bém importa inter­rogar. Muitas per­gun­tas poderiam ser colo­cadas sobre o modo como cada um recebe as imagens jornalísticas, de imprensa ou de televisão. Que imagens con­sum­i­mos (inadvertida­mente ou não)? Quan­tas vezes as questionamos? Quantas vezes interrogamos o quão obscena pode ser a captação de imagens do sofrimento dos outros? Quan­tas vezes indag­amos com o que é que pactu­amos ou que incentivamos quando quer­e­mos ver deter­mi­nadas imagens? Que ima­gens nos deviam impor que não comprássemos um jornal ou uma revista ou que mudássemos de canal? Que desviásse­mos o olhar?




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