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Medicamentos ou pastilhas elásticas?

As pessoas associam sempre colesterol a uma coisa má. Porém o colesterol é um componente essencial das membranas das nossas células e da composição dos tecidos, desempenhando outras importantes funções, como a síntese da bílis (indispensável na digestão de gorduras), a produção de hormonas como a progesterona, testosterona e cortisol, sendo ainda fundamental para a absorção das vitaminas lipossolúveis, incluíndo, as vitaminas A, D, E e K. Para se ter uma ideia, o colesterol é o principal esterol sintetizado pelos mamíferos.

Jorge Leitão
8 Dez 2012

É absorvido por ingestão de ovos, carnes e gorduras animais, mas também é produzido pelo organismo, sendo metabolizado no intestino, nas glândulas adrenais, nos órgãos reprodutores e fígado, circulando no sangue sob a forma de lipoproteínas (uma espécie de jangadas de proteínas, gorduras, fosfolipídios, mais colesterol). Essas lipoproteínas designam-se por VLDL, LDL e HDL. O LDL é vulgarmente conhecido por “mau colesterol” e o HDL por “bom colesterol”. Porquê? Porque se nos alimentarmos erradamente e se não fizermos exercício, há colesterol em excesso circulando no sangue – hipercolesterolemia. O problema é que este tem a tendência para se ligar ao revestimento interno das artérias. Neste caso as defesas do organismo reagem interpretando esta ação como uma ameaça e depositam cálcio sobre o colesterol que se fixou, formando placas arterioscleróticas. A consequência é a dificuldade do sangue fluir regularmente e este é um dos principais fatores de acidentes cardiovasculares, associado ao tabagismo.
E o HDL? Porque se diz que é o “bom colesterol? Porque esta lipoproteína é uma espécie de camião do lixo que ao circular pelo sangue, capta o colesterol em excesso que vai encontrando e transporta-o para o fígado onde é reciclado em sucos biliares ou transferindo-o para o intestino. A urina é também um meio de excreção. 
Deste modo, uma boa relação de equilíbrio entre a percentagem de LDL e HDL no plasma sanguíneo é a base para um metabolismo perfeito do organismo. Algumas pesquisas recentes indicam que o colesterol atua também como antioxidante natural.  
E por que me lembrei do que aprendi no liceu acerca desta matéria? Porque um senhor farmacêutico de Guimarães se lembrou de comparar um comprimido que combate as
doenças associadas ao colesterol, com uma pastilha elástica! Tudo porque o medicamento vendido nas farmácias é mais barato do que um chiclete. Um comprimido para o colesterol custa 4,2 cêntimos e uma pastilha elástica fica por 6,8 cêntimos. Vai daí, para atestar o “iminente colapso das farmácias” em Portugal, este “humilde” farmacêutico de Guimarães decidiu mandar para várias entidades (Presidente da República, primeiro-ministro, partidos e membros da troika e da Comissão Europeia) a prova de que um medicamento para o colesterol pode atualmente custar “menos 38%” do que uma trivial pastilha elástica.
“Como é que isto é possível, sabendo-se que, ao contrário das pastilhas elásticas, os medicamentos exigem longos anos de desenvolvimento, ensaios clínicos,
ensaios de efeitos secundários, das contra-indicações, recursos humanos com formação superior para a sua dispensa e aconselhamento, logística controlada, farmácias de serviço permanente abertas 24h/dia, 365 dias/ano, etc.?”, refere Fernando Monteiro, o farmacêutico indignado. “E se a sua farmácia tivesse optado por mudar de ramo e vender pastilhas elásticas, onde é que V. Exa iria procurar o seu medicamento?”, pergunta.
Mas eu respondo, se me permite V. Exª. Ia reclamá-lo ao Serviço Nacional de Saúde. Porque a saúde das pessoas não pode ser comparado ao negócio das gomas elásticas. Pagamos impostos para sustentar o serviço. Não para que outros se sustentem à custa dele. No portal da saúde do ministério pode ler-se: “Até 1979, a assistência médica competia às famílias, a instituições privadas e aos serviços médico-sociais da Previdência. A criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS) instituiu uma rede de órgãos e serviços prestadores de cuidados globais de saúde a toda a população, através da qual o Estado salvaguarda o direito à proteção da saúde. O Serviço Nacional de Saúde tem por objectivo propiciar aos utentes cuidados amplos e de elevada qualidade.” E ainda: “A política de Saúde tem como prioridades – Melhorar a qualidade e o acesso dos cidadãos à Saúde; garantir a sustentabilidade económica e financeira do Serviço Nacional de Saúde; fomentar a participação dos cidadãos na utilização e gestão ativa do sistema de saúde.”




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