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A guerra que vivi

Como atualmente sou Técnico de Lazer e dinheiro para melhor gozar a vida, escassa, devido ao que os assaltantes governamentais têm vindo a fazer aos técnicos de lazer da função pública, percorro mais as ruas da minha cidade, encontro mais espoliados como eu e choramos em grupo a desgraça que se abateu sobre o país e, normalmente, despedimo-nos uns dos outros com a conversa em dia, mas devidamente revoltados com a incompetência e a rapacidade organizada dos políticos.

Artur Soares
8 Dez 2012

Assim, um destes dias perguntaram-me se já tinha sido entrevistado por uns jovens da minha cidade, sob a rubrica “A guerra que não vivi”. Que os jovens já tinham feito várias entrevistas e que estava a ser um sucesso tal ação.
A pensar na guerra que vivi, nos trinta meses de arma na mão a respirar o forte aroma do capim do norte de Moçambique; nos quatro anos de vida militar obrigatória e nos mortos e feridos suportados, fiquei com medo que os referidos jovens fizessem entrevistas a quem “passou pelo ultramar” e não a quem “viveu a guerra do ultramar.
É obrigatório dizer-se que dos novecentos mil homens que permanentemente estavam no ex-ultramar português, só uns vinte por cento tinham contactos
reais com a guerra. E estes eram soldados, sargentos e oficiais milicianos. Isto é: a guerra era feita por milicianos, e só eles, praticamente, foram carne para canhão. E porquê? Porque a guerra, qualquer que seja e onde quer que seja, é o fruto dos teimosos, dos frustrados, dos jactantes e dos orgulhosos.
Fazem-se guerras porque os homens são feras de gravata; fazem-se guerras porque o egoísmo já matou o coração e o cérebro de quem antes deu provas de incapacidade de pensar e unir; fazem-se guerras porque quem as manda fazer e quem as organiza nos gabinetes, não é capaz de chorar e não tem filhos para mandar à guerra.
Na guerra do ex-ultramar português passaram milhares pelas vilas e cidades, devidamente refeitinhos, bem engravatados e engraxados, enquanto os sem sorte “rastejavam como sapos e com as fardas em farrapos” onde, só os referidos vinte por cento perdiam peso, ganhavam fome, distúrbios psicológicos, violência, ausência de lágrimas e perda total de esperança de regressar e de viver.
Por isso, não perguntem os jovens da minha cidade pela guerra a qualquer um; não perguntem nada a militares que eram profissionais, pois enchiam os gabinetes e as secretarias e todos os serviços que os desviavam da guerra; não perguntem nada aos que dormiam nas vilas e nas cidades, sem precisarem de dormir com a arma à cabeceira da cama ou a ir recolher o almoço para ser comido no chão.
Não perguntem nada a estes. Não sabem nada e, o que sabem ouviram nas conversas de caserna ou a passaram o tempo a consumir churrascadas com piripiri e cerveja gelada. Não perguntem (também) nada a estes militares d’agora, que berram no fim de uma comissão de serviço fora do país durante seis meses, que ganham bom dinheiro e que a televisão faz deles autênticos heróis nacionais sem participarem em qualquer heroicidade.
A guerra que vivi como miliciano deu-me oito mortos e cinquenta e oito feridos, num grupo de cento e trinta, que me provocaram marcas e revolta. A guerra que vivi provocou-me risos e choros não justificados; provocou-me noites de insónia, olhando as estrela e a pensar no regresso em que o tempo parecia ser eternidade; ouvi rebentamentos de minas e estampidos das metralhadoras; senti na carne as picadas de moscas parasitas que me sugavam o sangue; vi mães receosas com os filhos às costas, mas que batiam palmas quando passava; comi arroz com atum ao meio dia e comi atum com arroz à noite; vi negros que como eu tomavam banho nos charcos e durante o dia trabalhavam escoltados.
Quem está na guerra só pensa em guerra. A guerra é para matar ou morrer e qualquer que seja a sorte de quem lá anda, o resultado final será sempre incerto e injusto. Na Terra, na guerra, mata-se para não morrer. Desse modo – e para a paz dos que matam na guerra – os santos choram, mas não fazem queixa a Deus.




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