Fotografia:
Braga desfigurada

Já escrevi neste jornal mais 2 artigos sobre as inexplicáveis obras que se estão a fazer em Braga, mas isto é de tal modo gritante, que fui levado a escrever mais este e é possível que não seja o último. Os bracarenses têm vindo a assistir, desde há muitos meses, pasmados e impotentes, a estas obras, com as quais não estão de acordo, mas sem também, estranhamente, esboçar qualquer protesto visível, a não ser alguns artigos neste mesmo jornal, todos eles muito tímidos. E eu pergunto: onde está o oposição na Câmara, onde está a movimento Juntos por Braga, onde estão as «pessoas de peso» que tenham tentado travar este verdadeiro atentado contra o centro histórico da nossa urbe?

António Coelho
7 Dez 2012

Por outro lado, pergunto como é que é possível que todos os responsáveis por estes trabalhos tenham entrado em acordo para praticar este verdadeiro «assassinato» contra o património da cidade, património que é de todos e não só dos mandantes que estão a destruí-lo?
Se não vejamos: o Largo da Senhora-a-Branca estava muito bem (muito melhor, aliás) como estava; a Av. Central, idem; a R. dos Chãos a mesma coisa e a mesma coisa também, o Campo das Hortas, o Largo dos Penedos, a R. de S. Vicente, a Av. Norton de Matos… Mas a «cereja no cimo do bolo» desta destruição é-nos brindada pela autêntica «eira» em que foi transformado o ex-belo jardim do Largo Carlos Amarante. É certo que lá foram postos uns canteirecos para disfarçar o mau gosto, mas não disfarçam nada, tal é esse mau gosto e o tamanho da eira. Ainda por cima, para além do que constituía o antigo Largo a tal eira foi estendida aos «arredores» e ainda à R. de S. Lázaro e à R. do Raio, onde o alcatrão foi substituído por blocos, sem ninguém saber porquê nem para quê. Lamentável, verdadeiramente lamentável!
Os cartazes que identificam estas obras soam a propaganda barata, falam de «regenerar» e «requalificar» o centro histórico de Braga, mas penso que os verbos apropriados seriam: afeiar, estragar, desfigurar…
Ainda por cima, os responsáveis por esta desgraça, vêm gabar-se (como aconteceu neste Jornal do dia 23 do mês passado), ao afirmar: «Braga reafirma-se a cidade com maior área pedonal». Maior área pedonal de Portugal, da Europa, do mundo?… Em qualquer das hipóteses, que triste meta! Se o «campeonato» fosse para ser a cidade com mais espaços verdes e mais jardins, não seria mais bonito? Sim, porque se alguma coisa Braga precisa é mais espaços verdes e jardins. De lajedos já estávamos muito bem servidos, a começar pelo lajedo em que foi transformado o antigo Campo da Vinha, quando se podia ali ter feito um belo parque, em plena cidade, como acontece em Londres e outras cidades, onde há mais bom gosto e mais arte.
Querem os responsáveis algumas sugestões sobre aquilo em que deviam ser aplicados os milhões que se estão a gastar nestas estúpidas obras? A requalificação do Parque de Guadalupe, a requalificação do rio Este (de que tanto se fala e quase nada se faz), sobretudo junto do PEB, a requalificação do «espaço selvagem» em frente do Hotel Ibis, que tanto afeia a cidade e onde se poderia fazer um belo parque… Isto para já não falar da reparação de passeios, da restauração das dezenas de casas em ruínas, etc. Há muitas maneiras de gastar dinheiro mal gasto, mas gastar dinheiro para piorar as coisas, é caso bastante inédito. Além de tudo o que já disse e mais que poderia dizer, é evidente que estas inclassificáveis obras vão tornar o centro histórico muito mais quente, o que não deixa de ser também uma coisa grave.
A única explicação possível (que ao fim e ao cabo não explica nada…) para estas obras é que elas obedecem a interesses (inconfessados e inconfessáveis) político-partidários e económicos dos quais muitos certamente estão a beneficiar. Lamentável, verdadeiramente lamentável!
Penso que os responsáveis desta cidade tinham muito a aprender com Guimarães, uma cidade exemplarmente requalificada, com espaços verdes e parques, sem casas em ruínas (em Braga são muitas dezenas). Braga já não estaria muito bem, mas agora ficou bem pior!
Por tudo o que aqui foi afirmado, propunha que se mudasse a designação de Braga como «Cidade do Barroco», para «Cidade dos lajedos», com a variante de «Cidade das eiras»…




Notícias relacionadas


Scroll Up