Fotografia:
Uma derrota vergonhosa

“Isto só vai mudar quando morrer alguém” é uma frase que nos habituamos a ouvir quando rebentam petardos no estádio, quando a carga policial passa dos limites, quando “chovem” objetos da parte superior das bancadas, quando há escaramuças entre adeptos e em muitas outras situações que envergonham o futebol e todos quantos estão envolvidos neste desporto que move milhões de pessoas e de euros. O pior é que agora morreu mesmo ALGUÉM. Foi um adepto comum, um destes milhares que permitem que o futebol exista. Podia ter sido eu. Podia ter sido o leitor. “Eu não me meto nessas coisas”, poderá o leitor estar a pensar. Acredito. E talvez o João Silva também não. E, afinal, o que são essas “coisas”? É que basta sair de casa para ir à bola para estarmos “metidos nessas coisas”…

Manuel Cardoso
6 Dez 2012

O Braga ganhou mas o futebol sofreu uma derrota vergonhosa! Dizem que houve confrontos. Entretanto, os dirigentes desmentem. Será essa a função dos responsáveis? Desmentir os confrontos, driblar as polémicas, fingir que tudo se passa na “santa paz”? De vez em quando os dirigentes indignam-se e a gente aplaude; outras vezes calam-se e a gente cala-se também.
“Qualquer dia morre alguém”… o João Silva morreu. E agora? Vamos continuar a fechar os olhos?
A ser verdade o que afirmou a Associação de Moradores do Bairro das Andorinhas, várias pessoas que nem tinham ido ao futebol foram atingidas por uma carga policial no final do jogo. Nessa ocasião, segundo a mesma fonte, a polícia terá disparado “centenas de disparos” e um deles terá atingido um jovem de 16 anos que estava em casa, num quarto andar (!!!). O jovem terá ficado gravemente ferido. Agora, evidentemente, vamos aguardar por um interminável inquérito… e o pior é que, provavelmente, nada vai mudar.
O que é certo é que já não faz sentido dizer “Isto só vai mudar quando morrer alguém”. O que diremos então daqui para a frente? Que isto só vai mudar quando morrerem umas centenas? Entretanto vamos assistindo ao sacudir da água do capote; vamos continuar a ver os nossos dirigentes a driblar as polémicas; a falar quando lhes convém e a calar quando outros interesses se levantam.
É por tudo isto que, cada vez mais, a vontade de “ir à bola” é menor. O desencanto perante este futebol vai aumentando. Que divertimento pode ser este em que se matam pessoas? Em que os cânticos das claques pregam o ódio mais selvagem? Em que se festeja com petardos? Não é este o futebol que quero mostrar aos meus filhos…
Há dias saiu uma notícia afirmando que a crise fez com que se vendessem muito menos bilhetes do que no mesmo período da época passada. Mas será só a crise? Eu tenho dúvidas. Há muitos anos levei um amigo a assistir a um jogo entre Braga e Vitória. No final do jogo fomos “corridos” à pedrada à saída do estádio por adeptos do adversário. Esse meu amigo nunca mais foi ver um jogo do Braga. E pelo andar da carruagem muitos outros potenciais adeptos do SC de Braga nem chegarão a tentar…
Por ironia macabra, na mesma semana chegou da Holanda a notícia da morte de um árbitro, assassinado à pancada por três jogadores jovens. É este o futuro do futebol?




Notícias relacionadas


Scroll Up