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Por uma sociedade inclusiva

Ontem, um pouco por todo o lado, foi comemorado o dia internacional das pessoas com deficiência. À semelhança de outros dias assinalados para recordar este ou aquele estrato populacional, esta ou aquela preocupação ambiental, esta ou aquela efeméride, a sinalização do dia 3 de dezembro visa chamar a atenção dos problemas das pessoas portadoras de qualquer tipo de imperfeição física ou mental e pugnar pela defesa da sua dignidade, dos seus direitos e do seu bem-estar. É uma data promovida pelas Nações Unidas desde 1998 e pretende ainda chamar a atenção para os benefícios resultantes da integração plena na sociedade dessas pessoas.

J. M. Gonçalves de Oliveira
4 Dez 2012

À semelhança de muitas outras personalidades espalhadas pelo mundo, na véspera desta comemoração, durante a oração do Angelus, o Papa Bento VI não deixou passar a oportunidade de apelar às comunidades religiosas e aos governantes para a necessidade de proteger as pessoas com deficiência e promover a sua participação na vida coletiva.
No entanto, apesar dos apelos oriundos das mais eloquentes autoridades, da preocupação de várias instâncias internacionais e da abundante legislação produzida, a realidade do quotidiano pouco tem mudado.
A responsabilidade não cabe aos afetados, pois os exemplos da superação das dificuldades por grande parte deles, quando lhes é dada uma possibilidade, não escasseiam. Abundam mesmo casos de grandes vultos nas letras, nas ciências, na política e nas artes que suplantaram os seus defeitos, inatos ou adquiridos, tornando-se ícones da Humanidade. Quem não associará surdez a Beethoven ou cegueira a Louis Braille? Quem não aprecia a coragem e a bravura dos atletas paralímpicos que com devotado trabalho e desmedido sacrifício ultrapassam as maiores incapacidades?
Mais do que produzir leis, é urgente combater a surdez e a cegueira da sociedade, que continua a segregar quem é diferente e que, cobardemente, tapa os ouvidos e cerra os olhos aos anseios dos nossos concidadãos deficientes.
No contexto da crise em que vivemos, a situação destes nossos compatriotas, em paralelo com todos os outros tidos como normais, tem-se agravado ainda mais e posso testemunhar alguns casos de verdadeiro desespero.
Ainda há muito poucos dias fui confrontado com um desses dramas. Trata-se de um deficiente motor que, por ter nascido com uma malformação congénita (Mielomeningocelo), se desloca em cadeira de rodas, tem perturbações do foro urinário resultantes de uma imprescindível cirurgia à bexiga, dando origem a despesas acrescidas com o material necessário à sua higiene. Apesar da sua condição, não se acomodou e, com muito trabalho e vontade inquebrantável, terminou há três anos um mestrado, com boa classificação.
Depois de tanto empenho, de ter superado todas as barreiras para alcançar o objetivo de poder ganhar a vida e deixar de ser tão dependente, a frustração e o desânimo têm-se apoderando da sua alma. De entrevista em entrevista, de negação em negação, todas as portas se lhe têm fechado, aprofundando a cada dia sinais de revolta e desespero. Apesar da sua preparação, no momento, procura um qualquer trabalho que o faça sentir mais igual.
Este retrato repete-se com outros personagens e diferentes contextos, com elevada frequência. Se a sociedade civil não é capaz de dar resposta a estas pessoas que, por serem portadoras de uma qualquer deficiência, continuam a ser constantemente excluídas, urge fazer cumprir e alargar a legislação vigente e reservar uma percentagem de lugares para estes cidadãos aquando dos concursos públicos do Estado. Outro modo de amenizar esta segregação será dar incentivos reais a quem, de forma livre e responsável, acolha nas suas empresas estes indivíduos.
Assinalar um dia do calendário para chamar a atenção deste problema candente da nossa sociedade, já é alguma coisa. Mas libertar a consciência apenas com a sinalização de uma data, parece-me muito pouco e até pode assumir foros de enorme hipocrisia.




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