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Do tempo condicional ao tempo confirmativo

Como dizia a semana passada, há razões para se andar preocupado. Agora, que o orçamento foi aprovado, que foi fixado o enquadramento sobre o qual vai ser executado, as razões são ainda mais fortes. Diversas instituições vieram confirmar o que muitos economistas já tinham dito: a recessão vai ser muito superior à perspetivada pelo Governo e o desemprego vai agravar-se mais do que o previsto.

Luís Martins
4 Dez 2012

Faz toda a diferença se a economia em vez de cair 1% cair o dobro ou mais e se o desemprego em vez dos 16,4%, como o Executivo prevê, atingir os 17%, e quem sabe, os 18%. Ainda não começou a execução do Orçamento aprovado na semana passada e parece já não ter aderência à realidade. Pelo menos àquela que se julga que vai ser o ano de 2013. Do condicional ao confirmativo vai uma distância enorme, dois tempos que marcarão o tempo do país e do Governo num ano que pode ser dramático para todos. Basta que se confirmem as previsões que o Executivo não quis seguir.
O fracasso das previsões macroeconómicas custa muito e, por isso, não pode ser explicado, como já aconteceu, como sendo uma “surpresa orçamental”. Surpresa é algo com que se não conta, de todo, não é nada de que se supõe ou exista, desde início, forte probabilidade de acontecer. E já na preparação do Orçamento de 2012, as vozes dissonantes e conselheiras foram muitas. O resultado está à vista. Se o Orçamento de 2013 falhar, não será uma surpresa, será uma irresponsabilidade. Avisos de que os pressupostos deveriam ser outros, mais fiáveis, mais precavidos e prudentes, não faltaram. A verdade é que só o Governo acredita que os números vão ser os que debitou no documento orçamental. Não se espera que os resultados sejam bons. Parece-me que nem sequer se fez por isso. Será que haverá um milagre? O Governo não andará iludido por algum consultor? Milagre ou ilusão, venha o diabo e escolha. Como o diabo não acredita em milagres, a sorte cai toda na ilusão. É o que resta ao Governo e também a quem quiser. O Governo pode até alimentá-la, mas não passará de ilusão. O grau de intensidade não interessa para o caso. Será sempre má. E poderia ser evitada.
O orçamento foi aprovado com uma maioria confortável, mas foram muitas as reservas, umas explícitas outras menos. Mesmo entre deputados dos partidos da coligação. O argumento para a aprovação foi que o país precisava de um orçamento e que era preferível um, mesmo que sofrível, do que nenhum. O Governo estava a contar com isso e recuou apenas em aspectos de pouca relevância. Para além da desconfiança de muitos deputados, fica ainda a dos parceiros sociais, da Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) e outras instituições nacionais e internacionais. E fica também a de muitos de nós. O tempo confirmativo começa já dentro de um mês ou um pouco mais se esperarmos pelos resultados oficiais.
Entretanto, vamo-nos preparando para viver – quem assim o entender – um tempo de disfarce da austeridade rigorosa. De fazer de conta que não reparamos no salário líquido que nos cairá na conta, logo em janeiro. Os contribuintes do setor privado vão contar com uma ajuda – os do setor público já estavam avisados – para manterem a ilusão de que não estará em vigor um enorme aumento de impostos. A ajuda vem mesmo do Governo que, depois de conversar com os parceiros sociais, estatuiu que metade dos subsídios de férias e de Natal deverão ser pagos pelas entidades patronais em duodécimos. Realmente, as pessoas não vão dar conta da dita na folha de vencimentos durante 10 meses, a maior parte do ano. Cá está uma saída airosa. O problema vai ser nos meses em que não será assim…
Por mim, já tenho praticado o disfarce no ano que corre. Para o ano, apesar dos impostos, vou pensar que fico melhor. Não vou ficar, claro, é só para exercitar a teoria de Ângela Merkel, apresentada durante a sua visita ao nosso país, segundo a qual metade dos constrangimentos da austeridade é ultrapassada no âmbito do foro psicológico… Querem tentar?




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