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A fome da abundância

Os pais andam desorientados como tolos no meio da ponte. Não sabem para que curso hão de encaminhar os seus filhos. Todos estão sem garantia de emprego. A entrada numa universidade que já foi estatuto social e luz ao fundo do túnel já não é senão um meio de entreter os jovens mais uns anos a caminho do desemprego ou a caminho de desempenhos profissionais que nada têm a ver com os estudos efetuados. A emigração tem sido uma escapadela mas daqui a nada até essa porta se fechará porque se esgotarão, também lá fora, os lugares a preencher.

Paulo Fafe
3 Dez 2012

Ser doutor e engenheiro já não dá. Então, perguntam os pais e perguntamos todos nós, qual o curso que dá? E olhando para todos os lados, para baixo e para cima, o eco responde pela negativa. E porquê este estado de coisas, este desespero que se apossou de todos nós, estas portas fechadas que teimam em não abrir, ou num mutismo de vegetal? Porque não há emprego em Portugal? Porque não arranca a economia, como se ouve dizer que traria emprego para muita gente? Porque os bancos não emprestam com facilidade para a criação de empresas: porque há medo dos investidores dado o clima de desconfiança  que grassa por todo o lado; porque se estabeleceu um ciclo vicioso de pouco dinheiro, pouca compra. E isto e mais aquilo. Como sempre as palavras a adaptarem-se às circunstâncias fazendo jeitos e jeitinhos de pensamento trabalhado em premissas teóricas mas, de concreto, nada, o vazio e rotundo nada, como eco de coisa nenhuma. E no entanto eu penso que muitos sabem o porquê de tudo isto mas não querem dizê-lo. Tudo isto se deve à excessiva produção que a tecnologia trouxe ao mundo. Hoje faz-se em minutos o que dantes levava horas ou mesmo semanas; lavra-se um campo em horas o que dantes levava dias. E se olharmos para todos os ramos da atividade humana verificamos que a produção é mais rápida, quiçá mais perfeita, muito mais abundante mas a par de ter inundado os mercados provocou uma enorme dispensa de mão-de-obra. Há automóveis a rodos, casas a sobrar, roupa em armazém, etc. etc.. Ninguém quer culpar a produção pelo excesso mas reparem nas montras do comércio ou se quiserem olhem para o vosso guarda-fatos ou sapateira e digam-me se cabe lá mais alguma coisa! Dizia-me um velho que muito estimo, quando lhe perguntaram se pelo Natal não comprava uma pecinha de roupa: “eu só quero ter ainda tempo de vida para gastar a que tenho.” Por tudo o que observo pergunto, que curso devem tirar os meus netos? Engenheiros ou canalizador, médico ou cozinheiro, professor ou torneiro, cozinheiro ou arquiteto, advogado, empregado de café…  e fico-me sempre a responder, sei lá, tudo está saturado! Temos tanta abundância de tudo e de todos que ainda nos arriscamos a morrer de fome. Suponho que, numa utópica visão de futuro, sem ser cartomante ou astrólogo de televisão, ainda haveremos de estabelecer quotas de produção para controlar os mercados. Havemos de exigir á indústria, não fabrique tanto.




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