Fotografia:
Porque diminuem as Confissões?(2)

Mais do que analisar a evolução da praxis da Confissão nas comunidades cristãs ao longo da História da Igreja, pois se trata de um fenómeno normal em todas as instituições, interessa aqui acentuar um ponto que é essencial: a questão fulcral na Confissão não é que a absolvição seja dada em privado ou seja dada em público; a questão fulcral é que, através da mediação da Igreja, o penitente tenha a certeza de fé que obtém o perdão dos seus pecados.

M. Ribeiro Fernandes
2 Dez 2012

E esta certeza de fé pressupõe, da parte do penitente, que não poder haver perdão dos pecados sem ele o desejar (daí que, decretar a obrigatoriedade da Confissão não faça sentido), sem ele estar arrependido e sem ele estar decidido a mudar de vida; do lado da Igreja, que a absolvição tenha caráter sacramental que a fundamente.
Reunidas estas condições, o penitente tem a certeza de fé que os seus pecados são perdoados, quer seja através da absolvição particular, quer da absolvição em público. Não é apenas na Confissão particular que há caráter sacramental de perdão dos pecados; também a absolvição dada à comunidade reunida tem um significado sacramental e pode ser considerada como a aplicação do perdão de Deus. Os próprios reformadores, Lutero, Calvino e Zuínglio, reconheceram a culpa pública e, até hoje, essa prática manteve-se na maioria das Igrejas Reformadas.

1.Esta convicção teológica de procura do essencial e do espírito de Igreja fez com que, depois do Concílio Vaticano II, se começasse a generalizar o uso das celebrações penitenciais e da absolvição em comum para todos os que estivessem arrependidos, sem se excluir a Confissão particular para quem a solicitasse. Era uma forma de regresso ao sentido de comunidade dos crentes, depois de tanto tempo a acentuar apenas o lado individual. Porém, o que se sabe é que esta prática foi sendo travada, não por razões teológicas, mas por razões jurídicas e institucionais. Porquê? Medo de perder poder sobre as pessoas? Inércia do peso das tradições? Dificuldade de adaptação a novas formas de proceder?
Talvez seja altura de repensar essa orientação, face à progressiva diminuição do clero, porque o essencial para o perdão dos pecados é a atitude do penitente, já que a promessa de fé do perdão de Deus se mantém, quer na absolvição em privado, quer na absolvição em celebração pública. 

2. Há, na Liturgia da celebração da Eucaristia (Missa), uma tradição que se mantém praticamente simbólica e que devia ter outra dimensão prática e outro significado: é o momento penitencial no início da Missa, em que a assembleia se confessa pecadora e o presidente da assembleia suplica a Deus o perdão dos pecados para todos os que a compõem. Este momento devia ser mais valorizado na celebração da Eucaristia, porque se trata de um verdadeiro momento penitencial. É que a celebração pública penitencial, desde que bem orientada, pode ter uma vantagem psicológica importante sobre a Confissão em privado: a influência do grupo dá mais força e mais suporte ao sentido de fé em igreja. Não quer dizer que a Confissão particular não tenha também vantagens humanas próprias, ao nível da relação interpessoal, do efeito catártico e do aconselhamento, mas é preciso que este seja dado por quem o saiba fazer. Caso contrário, ninguém se admire que as pes-
soas fujam para os consultórios dos Psiquiatras e dos Psicólogos.

3. Talvez a prática da Igreja tenha acentuado demasiado a Confissão particular como se fosse o único caminho para a absolvição dos pecados. A verdade é que, nas actuais circunstâncias, as coisas parecem caminhar para uma solução até há pouco inesperada, devido à progressiva carência de clero, que não é necessariamente negativa. Isto levanta uma questão que é pertinente e nem sequer é nova na História da Igreja: a absolvição particular poder ser dada por leigos. Nos primeiros tempos da Igreja, a absolvição era dada pelos cristãos mais carismáticos, pelos confessores da fé, pelos mártires, pelos
diáconos. Mais tarde, também pelos monges (no capítulo dos mosteiros, em que os presentes eram obrigados a confessar, diante da assembleia, os seus pecados e o abade dava a absolvição). A confissão aos leigos tem, atrás de si, uma tradição de séculos: no Oriente permaneceu até ao século XIV e no Ocidente até ao século XVI. Santo Alberto Magno defendia que a confissão feita a um leigo possui verdadeiro carácter sacramental. Só mais tarde é que a Igreja foi restringindo esse poder para o clero.

Continua




Notícias relacionadas


Scroll Up