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Os burros, as cidades e o paraíso

As nossas cidades são de uma burrice extrema”. A afirmação, que se encontrava na primeira página do Jornal de Negócios de terça-feira e se repetia na página 12, sublinhava aquilo que o jornal considerava ser o mais relevante de uma entrevista concedida por Luísa Schmidt, socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais, Lisboa, e, vale a pena notar, uma pessoa que sabe do que fala.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
2 Dez 2012

A socióloga censura o que, em Portugal, tem impedido a sustentabilidade das cidades, tema central da conversa, considerando particularmente perniciosos dois aspectos designados por “o ‘casismo’ e o ‘carrismo’”, ou seja, a dependência dos automóveis e a má gestão do parque habitacional. “Passámos do 8 para o 80”, constata Luísa Schmidt a partir de um trabalho que está a ser realizado no Instituto de Ciências Sociais, explicando que deixámos de arrendar, como sucedeu durante o Estado Novo, e passámos a comprar, como ocorreu a seguir à adesão à União Europeia. A degradação das casas arrendadas e o alastramento de subúrbios, com “bairros sem condições absolutamente nenhumas em termos de espaço público” são duas nefastas consequências da burrice referida.

A socióloga tem razão nos fundamentos da crítica, mas poderia ter escolhido outra palavra, sem ser “burrice”, para explicar como são as nossas cidades. É que, como se diz na apresentação de um livro acabado de editar pela Bizâncio, Alerta!! Pelos Burros, de Paulo Caetano, “há animais com má fama, por vezes sem qualquer razão”. E, acrescenta-se, “o burro é um deles. De tal forma que o seu nome é, há muito, usado como insulto, como sinónimo de falta de inteligência. Uma clara injustiça para um animal dócil, capaz de aprender tarefas complexas e que foi, ao longo de séculos, um ajudante imprescindível ao trabalho nos campos agrícolas do nosso país”.

O texto dá ainda uma má notícia, que, na segunda-feira, o Diário de Notícias corroborava. “Hoje, por incrível que possa parecer, o burro está prestes a extinguir-se em Portugal”. Em Portugal e nos presépios, se se acreditasse em alguns jornais, como o Correio da Manhã, que, há dias, interpretando mal o que Joseph Ratzinger escreveu em A infância de Jesus, garantia, na primeira página, que o Papa tinha afastado o burro (e a vaca) do presépio. Mesmo que nenhum animal tenha presenciado o nascimento de Jesus, “nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento”, garante Bento XVI.

Merecem lá estar, os burros, tão estimados por escritores, como o espanhol Juan Ramón Jiménez, autor de Platero e eu, obra que tornaria Platero um dos burros mais famosos da história da literatura, ou o francês Francis Jammes, que escreveu uma singular “Oração para ir para o paraíso com os burros”:

“Já que terei de ir até Vós, ó meu Deus, fazei / com que seja por um dia onde o campo em flor / há-de brilhar. Desejo, tal como fiz na terra, / escolher um caminho para ir, como me agradar, / ao Paraíso, onde as estrelas estão em pleno dia. / Tomarei o meu bastão e, na grande estrada, / irei e direi aos burros, meus amigos: / ‘Sou Francis Jammes e vou ao Paraíso, / porque na terra do bom Deus não há Inferno.’ / Dir-lhes-ei: ‘Vinde, doces amigos do céu azul, / pobres animais queridos que, num movimento brusco / de orelha, afugentais as moscas impertinentes, as pancadas e as abelhas…’ /
/ Que eu te apareça no meio destes animais / que muito amo porque baixam a cabeça / docemente e param juntando seus pezinhos / de maneira tão doce e que vos move à piedade. / Chegarei, seguido pelos seus milhares de orelhas, / acompanhado dos que levam nos flancos açafates, / dos que puxam carroças de saltimbancos / ou carruagens de plumas ou folha-de-flandres, / dos que têm sobre o lombo bidões amolgados, / das burras cheias de odres e já trôpegas, / daqueles aos quais se vestem umas calças / por causa das chagas azuladas e gotejantes / que atordoam as moscas em círculos agrupadas. / Meu Deus, faz com que, com estes burros, eu chegue junto a Ti. / Faz com que, na paz, anjos teus nos conduzam / para ribeiras frondosas onde ondulam cerejas / lisas como a carne que ri das jovens mulheres, / e faz com que, reclinado nesta morada das almas, / nas tuas divinas águas, eu seja igual aos burros / que hão-de contemplar sua doce pobreza / na limpidez do amor eterno”.

Sendo, assim, tão boa e desejável companhia, os burros não merecem estar associados a quem tem contribuído para desordenar e estragar o território português.




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