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Um olhar em redor

Dado que estas minhas crónicas nunca vêem a luz do dia numa data certa (quer semanalmente quer, ao menos, uma vez por quinzena) é muito pequena a “margem do manobra”, passe a expressão, de que disponho quanto à possibilidade de poder aludir em tempo oportuno aqueles acontecimentos que mais nos afectam e se vão sucedendo no dia-a-dia, pelo que, escrevendo neste jornal vai a caminho de oito anos, sem discutir, longe disso, a maior ou menor valia deste meu contributo, prestes a ultrapassar as cento e oitenta crónicas sobre os mais diversos temas, vejo-me compelido a dar largas à imaginação, coligindo elementos e soltando por fim o verbo, partindo não raramente do zero, do nada, mas procurando acima de tudo não defraudar o leitor sem deixar de ter presente, ao mesmo tempo, esse sábio conceito de Sócrates quando afirmou: “Só sei que nada sei”.

Joaquim Serafim Rodrigues
1 Dez 2012

Claro que é mais fácil para um cronista discorrer em torno de certas matérias nas quais se especializou, versando sempre o mesmo tema, onde abundam as frases feitas e os lugares-comuns, e, reparem, as coisas acontecem-me assim, partindo, como disse anteriormente, do nada. Vou deixar aqui alguns desses exemplos, adornados conforme é notório, com alguma dose de ironia, inofensiva, note-se:
Em política – “Não, o senhor ministro não quis dizer o que disse, visto que, como é sabido, nunca tal coisa diria, importa é reter aquilo que ele não disse e, mesmo que o tivesse dito, não o fez na sua qualidade de ministro, esse tinha ficado em Lisboa, tratou-se apenas de um almoço informal num fim-de-semana entre amigos, mas a oposição é assim (estes dirão o mesmo quando se encontrarem no poder…) não se deu conta de que o ministro, ali, não o era, só voltaria a sê-lo na segunda-feira uma vez regressado ao Terreiro do Paço onde, aí, sim, tudo aquilo que ele dissesse teria então o devido peso, se o tivesse…”.
Falando de Arte – “Os quadros reflectem o inconformismo do seu autor, que procura não se sabe bem o quê nem porquê, ver-se-á depois o seu efeito face às emoções provocadas naqueles que os forem ver logo que aberta a exposição. Sobressai neles, contudo, como que um emaranhado de arbustos, de folhagem, parecendo desprender-se do profundo luminoso dessa verdura (nota-se) uma vibração óptica inquietante, uma espécie de cenografia impassível, paralisante, que nos deixa ensimesmados”.
Acerca de Futebol – “Como toda a gente viu, só existiu uma equipa em campo, mas factores extra-futebol ditaram a nossa derrota, sem contar que até o guarda-redes contrário se excedeu, indo buscar bolas onde nunca mais na vida ele as irá apanhar, garanto-vos eu que ando nisto há muitos anos (se ele as apanhou é porque tinham defesa, visto que às outras nenhum guarda-redes lhes chega…) e, do árbitro, desculpem lá os senhores jornalistas, não falo, mas diga-se de passagem que se trata de um tipo habilidoso, pois fartou-se de apitar quase sempre para o mesmo lado (apitou de costas para as jogadas?), não insistam, por favor, sou homem de uma só palavra e conheço bem o peso das multas, tanto mais que prometi comprar um computador ao meu filho mais novo e esse dinheiro faz-me falta”.
Final de crónica inesperado: neste preciso momento em que a escrevo, a chuva intensa que tem caído esta tarde escorre, em fortes bátegas, pelas vidraças aqui a meu lado neste quarto onde trabalho, estudo, leio e onde, também, me entrego por vezes ao deleite de escutar uma boa sinfonia, inspiradora, quando se propicia, dos meus pensamentos. E as pancadas da chuva, conforme já referi, como que me transportam, inadvertidamente, a uma dessas criações imortais de Mozart, Wagner, Tchaikovski ou Beethoven, este o maior de todos, passando na sociedade aristrocrática de Viena como um vendaval de orgulho. Rebelde, viril, intratável, tendo ensurdecido, viveu numa convulsão, morreu numa tempestade. No auge, quando o coche real passava por ele, não era Beethoven que tirava o chapéu – era o imperador!
Fecho os olhos, absorto. O concerto (perdão, esta crónica) acabou.




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