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Quando nasceu Jesus?

O Papa publicou há dias o 3.º volume da trilogia “Jesus de Nazaré”. Os dois primeiros volumes abordaram a vida adulta de Jesus; o livro agora editado centra-se no perío-do da infância do Salvador. A forma – patética! – que vários meios de comunicação social encontraram para noticiar o lançamento deste último livro de Bento XVI foi a de espiolharem duas brevíssimas referências contidas na obra e transformá-las em pseudo-escândalos.

Victor Blanco de Vasconcellos
29 Nov 2012

A primeira respeita à data de nascimento de Jesus, que o Papa diz ter ocorrido por volta do ano 7 a. C.; a segunda prende-se com a inexistência de animais na manjedoura onde, segundo S. Lucas (2, 7), a Virgem reclinou o Menino envolto em panos.
Ninguém minimamente culto (seja crente ou “gentio”…) entende onde poderá estar o “escândalo” propalado pelos “media”. É que, tanto num caso como no outro, são verdades pacífica e consensualmente aceites – desde há muito! – por historiadores e por teólogos (nomeadamente, pelos exegetas bíblicos).
Vejamos o caso da data do nascimento de Jesus.
É sabido e mais que sabido (tendo em conta a data da morte de Herodes, o Grande, ocorrida no ano 4 a.C., e as informações de Flávio Josefo, confirmadas pelos cálculos de Kepler) que Jesus nasceu pelo menos quatro anos antes do início da chamada “Era Cristã” (os anos 6-7 a.C. são os mais consensuais).
Este facto ficou a dever-se a um erro de cálculo do frade e cientista Dionísio Exíguo, no séc. VI. Este monge romeno (mas a viver na Cúria de Roma), versado em matemática e em astronomia, celebrizou-se pela criação de um conjunto de tabelas para calcular a data da Páscoa, dando origem, indiretamente, à introdução do conceito de “Anno Domini” (“Ano do Senhor”), ou seja, à contagem dos anos a partir da Encarnação de Jesus – contagem essa ainda hoje em uso e vulgarmente referida como “Era Cristã”.
(Nota curiosa: Portugal foi um dos últimos países a adotar este novo método de contagem do tempo, que foi imposto pelo rei
D. João I, a 15 de agosto de 1422, em substituição da “Era de César”, até aí em vigor no nosso país, e cujo ano 1 correspondia ao ano 38 a.C.; a Espanha já usava a contagem da “Era Cristã” desde meados do século XIV).
Dionísio Exíguo enganou-se, pois, nos cálculos com que estabeleceu o “ano 1” da nossa Era, situando o nascimento de Jesus cerca de sete anos depois da data em que efetivamente esse nascimento ocorrera em Belém. Onde está o “escândalo”? Onde a “polémica”? Só mesmo na cabeça dos jornalistas que quiseram “escandalizar” não se sabe quem…




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