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Animais no presépio

Na passada segunda-feira encontrei no facebook a figura de um boi e de um jumento com a seguinte legenda: mais dois no desemprego… No brevíssimo comentário que fiz recomendei a leitura das páginas 62 e 82 do último livro de Bento XVI, «A Infância de Jesus». A propósito deste livro tem-se divulgado a ideia de que o Papa está contra a presença, no presépio, das figuras do boi e do jumento. Nada mais falso. Lê-se na referida página 62: «Nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento». O que se depreende do que Bento XVI escreveu é que quis explicar porque aparecem no presépio aquelas figuras. 

Silva Araújo
29 Nov 2012

No prefácio deste livro Bento XVI esclarece: «nele procurei interpretar, em diálogo com exegetas do passado e do presente, aquilo que Mateus e Lucas narram acerca da infância de Jesus, no início dos seus Evangelhos» (pag. 7).
No Evangelho diz-se que Maria colocou o Menino recém-nascido numa manjedoura (pag. 60). A manjedoura, escreve o Papa, faz pensar nos animais que encontram nela o seu alimento (pag. 62). No Evangelho não se fala de animais, acrescenta. Como é que eles aparecem no presépio?
Transcrevo, literalmente, a explicação do Papa (pag. 61-62):
«Aqui, no Evangelho, não se fala de animais; mas a meditação guiada pela fé, lendo o Antigo e o Novo Testamento correlacionados, não tardou a preencher esta lacuna, reportando-se a Isaías 1, 3: ’O boi conhece o seu dono, e o jumento o estábulo do seu senhor; mas Israel, meu povo, nada entende’.
Peter Stuhlmacher observa que provavelmente teve influência também a versão grega (na Setenta) de Habacuc 3, 2: ‘No meio de dois seres vivos (…) tu serás conhecido; quando vier o tempo, tu aparecerás’ (cf. Peter Stuhlmacher, Die Geburt des Immanuel, p. 52). Aqui, com os dois seres vivos, entende-se evidentemente os dois querubins que, segundo Êxodo 25, 18-20, estavam colocados sobre a cobertura da Arca da Aliança, indicando e simultaneamente escondendo a presença misteriosa de Deus. Assim a manjedoura tornar-se-ia, de certo modo, a Arca da Aliança, na qual Deus, misteriosamente guardado, está no meio dos homens e à vista da qual chegou, para ‘o boi e o burro’, para a humanidade formada por judeus e gentios, a hora do conhecimento de Deus.
Portanto, na singular conexão entre Isaías 1, 3; Habacuc 3, 2; Êxodo 25, 18-20 e a manjedoura, aparecem os dois animais como representação da humanidade, por si mesma desprovida de compreensão, que, diante do Menino, diante da aparição humilde de Deus no estábulo, chega ao conhecimento e, na pobreza de tal nascimento, recebe a epifania que agora a todos ensina a ver. Bem depressa a iconografia cristã individuou este motivo. Nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento».
 
Mais adiante, na página 82, a propósito da presença dos Magos, Bento XVI escreve: «Assim como a tradição da Igreja leu, com toda a naturalidade, a narrativa de Natal tendo por horizonte de fundo Isaías 1, 3 e deste modo chegaram ao presépio o boi e o jumento, também leu a narrativa dos magos à luz do Salmo 72, 10 e de
Isaías 60. E assim os sábios vindos do Oriente tornaram-se reis, e com eles entraram no presépio os camelos e os dromedários».
 
Em resumo: O Evangelho não refere a presença de animais junto do Menino recém-nascido. A meditação guiada pela fé, lendo o Antigo e o Novo Testamentos correlacionados, cedo preencheu essa lacuna.
É falso afirmar, a partir do que Bento XVI escreveu, que o Papa está contra a presença da figura do boi e do jumento no presépio ou a desaconselha.




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