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Afinal, quem faz a escola?

Guardo da minha infância longínqua a recordação de uma escola primária capaz e zelosa dos seus objetivos primordiais: ler, escrever e contar. E mais tarde, no liceu, a persecução de novos objetivos, – aprender a ser e a estar, porque educar era tarefa primeira da família – formando cidadãos trabalhadores, responsáveis e cumpridores dos seus deveres familiares, profissionais e sociais.

Dinis Salgado
28 Nov 2012

Embora com carências materiais de vária ordem (livros, cadernos, lápis, mesas, cadeiras, instalações sanitárias, comodidade e conforto), à escola não faltava, porém, a maior das riquezas e que eram professores empenhados, sabedores, motivadores, dinamizadores e guias e, quantas vezes, gestores de conflitos. Enfim, um exemplo para a comunidade.
Lembro-me bem do meu avô materno, professor primário na minha aldeia natal, que, fora das horas letivas exercia funções de juiz de paz, presidente da junta, enfermeiro, ensaiador e regente musical do grupo coral da igreja e, até, conselheiro matrimonial. Estes serviços gratuitos que prestavam à comunidade nos seus tempos de lazer, conferiam aos professores uma aura de prestígio e respeitabilidade que faziam da escola para além de oficina de saberes, oficina de almas.
Todavia, os tempos mudaram e as novas correntes pedagógicas e psicopedagógicas trazem à educação ventos de mudança e a escola centrada no professor dá lugar a uma escola centrada no aluno – puericentrismo – que é o objetivo primordial do ensino/aprendizagem, da educação. Tudo à sua volta gira, planeado e desenvolvido é para a obtenção do sucesso escolar e educativo.
Aqui, professores, alunos, pais, auxiliares, funcionários e sociedade civil local convergem nas suas sinergias para que este puericentrismo não caia em exageros e desmandos e resulte na formação de cidadãos autónomos, responsáveis e livres.
Ora, os ministérios da Educação, não largando mão do seu poder centralizado e burocrático, entraves frequentes põem à autonomia, criatividade e dinamismo das escolas que pretendam incrementar os seus projetos educativos. Assim, o papel do professor, que é ensinar e educar, relega-se para um plano secundário e tantas vezes diminuído, e desvalorizado por políticas sectárias e cegas de sucessivos ministérios da Educação que, sobrepondo os interesses administrativos aos interesses pedagógicos, e teimando em legislar e governar as escolas de gabinete e a régua e esquadro, fazem dos professores escriturários, chefes de secretaria e manipuladores de papéis.
Chegamos, pois, a uma escola que não valoriza o trabalho, o esforço, o rigor, a disciplina dos alunos e mais depressa premeia o mau aluno e castiga o bom. E, se outrora, educar era primeiramente preparar as crianças e jovens para a vida de adultos que consistia em reproduzir os seus modos de vida, de pensar e agir, modernamente, dada a aceleração de transformações profundas que acontecem em todos os setores da sociedade, educar é preparar os jovens para o futuro, para a vida de amanhã, muito longe do ler, escrever e contar da minha infância.
E, se da pedagogia tradicional, passando pela Escola Nova de Freinet, pelas correntes não diretivas de Freud e pela desescolarização de Ivan Illich, chegamos à escola tecnológica dos nossos dias (computador e quadros interativos), a dúvida persiste: afinal, quem faz a escola? Penso que quem faz a escola, em primeiro lugar, ainda são os seus professores. Bons ou maus.
Então, até de hoje a oito.




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