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Um Nobel com Ética

O Prémio Nobel deste ano foi partilhado entre um britânico, Sir John B. Gurdon e um japonês, Shinya Yamanaka, que descobriram a possibilidade de “reprogramar células adultas para as transformar em células pluripotentes”, respeitando assim a dignidade do embrião humano.

Maria Susana Mexia
27 Nov 2012

A investigação em células estaminais de embriões humanos deixava um certo desconforto ético que, no entanto, parecia ser o único caminho a seguir. Mas em 2006 surgiu uma notícia surpreendente da Universidade de Quioto. Um cirurgião ortopédico que se dedicara à investigação sobre células estaminais demonstrou que se podem obter células estaminais com a mesma versatilidade que as embrionárias, sem necessidade de utilizar embriões, que além disso teriam que ser clonadas do paciente, para não provocar rejeição por incompatibilidade genética.
Era uma descoberta eletrizante, era um passo surpreendentemente imaginativo. Em lugar de se imitar o desenvolvimento natural de embrião para adulto, porque não inverter o relógio e passar de adulto para embrião?

Cinquenta anos de investigação das células estaminais trouxeram a possibilidade de curar doenças até aí intratáveis, mas também geraram grandes controvérsias de cariz humano, que com esta descoberta de  Yamanaka a problemática extinguiu-se. Tom Douglas do Uehiro Centre for Practical Ethics, na Universidade de Oxford, descreve o trabalho de Yamanaka como “um raro exemplo de uma descoberta científica que pode solucionar mais problemas éticos do que os que cria”.
A originalidade de Yamanaka pode ter tido origem na sua sensibilidade ética. Julian Savulescu, o diretor do Oxford Uehiro Centre for Practical Ethics, que não tem objeções à investigação em embriões, reconhece que “Yamanaka leva muito a sério as preocupações éticas das pessoas sobre a investigação em embriões o que o levou a alterar a trajetória da investigação para uma direção que é aceitável para todos. Ele merece não só o Prémio Nobel da Medicina mas também um Prémio Nobel da Ética.”
Na sua clássica experiência na Universidade de Cambridge, Sir John descobriu que o processo de desenvolvimento celular é reversível. O que se pensava anteriormente era que as células não poderiam mudar uma vez especializadas como células nervosas, da pele ou dos músculos.
Muitos cientistas abandonaram as experiências em células estaminais embrionárias e começaram a trabalhar naquilo a que Yamanaka chamara “células estaminais pluripotentes induzidas “
Com a descoberta e a certeza de que não podemos continuar
a destruir embriões humanos para investigar e descobrir, deu-se ainda um salto mais fabuloso e concludente: “uma ciência ética é, também, uma boa
ciência.”




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