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Preocupado…

Se acontecer como previsto, amanhã vou almoçar com uns amigos. Quase todos, desde 1993. Alguns ainda antes desse ano. Vai ser um almoço rápido – normalmente, somos muito eficientes – porque alguns de nós, por estarmos ainda no ativo, temos compromissos profissionais. Um evento que acontece duas ou três vezes no ano. Fala-se de política. Da que se faz, da que se deveria fazer e da que se fez antes. Têm todos a palavra, mas uns falam sempre mais. Gostamos de os ouvir, têm dom da palavra e saber político adquirido com a experiência e nas lides da luta partidária e política. Não existe agenda ou ordem de trabalhos. Há sempre alguém que dá o mote, normalmente aquele à volta de quem nos reunimos.

Luís Martins
27 Nov 2012

A atualidade política é matéria que nunca escapa ao escrutínio e à análise. Vão-me perguntar o que penso disso. Direi que estou preocupado com o futuro, que já tive mais esperança e que já acreditei mais.
Preocupado com o futuro dos meus, da minha família, com alguns irmãos, mas sobretudo, com os meus sobrinhos. Que emprego? Vão ter de emigrar? Preocupado com as pessoas com quem mais me relaciono porque se sentem injustiçadas e defraudadas. As expetativas criadas não foram, de modo algum, as dificuldades por que estão a passar. Preocupado com a pobreza que está a alastrar e que as estatísticas confirmam e a realidade também atesta. Há dias, relataram-me um episódio que as palavras não vão certamente descrever como o percebi. Uma carrinha de uma instituição social parou em determinado local da cidade e logo apareceram, não se sabe de onde, inúmeras pessoas prontas a receber uma dose de comida. Aguardavam a chegada do restaurante ambulante sem o darem a entender. Uma foi reconhecida por quem presenciou o momento e logo tapou a cabeça. Uma outra reclamou duas doses. O problema não é só a fome, mas outras situa-
ções que a crise fez relevar. Dramas que não são só daquelas pessoas, mas de todos nós.
Alonguei-me agora um pouco, mas volto às preocupações. Preocupado com o país que parece cada vez mais esmagado pelo peso das responsabilidades financeiras, apesar dos cortes e da austeridade imposta. Aqui chegados, os governantes dizem que já esperavam. Mas a maioria da população não. Ninguém lhes tinha dito que apesar do sofrimento, a coisa ia ficar mais cinzenta e até preta. A austeridade, como se tem visto, não tem trazido vantagens para o país. No entanto, há quem veja, no exterior, que o país está a ficar nos trinques. Por cá, não se vê nada disso, nem parece que se venha a ver tão cedo. Sofre-se, alguns estão mesmo desesperados. E ao que nos dizem, continuaremos por mais anos assim. Não importa que nos digam que estamos jeitosos, que estamos mais elegantes, se não nos sentirmos bem. O pior, é que ninguém nos diz qual será o prazo do tratamento, nem a dosagem. Quase sempre na cura de uma maleita a prescrição é mais exigente no início para depois diminuir progressivamente, mas aqui, no pacote da austeridade, a dosagem está a aumentar cada vez mais.
Depois da mudança de rumo, acreditava-se que o futuro seria mais seguro. Uma nova esperança sossegou-nos o espírito. Por pouquíssimo tempo. Sabíamos que teria de haver alguma austeridade, não sabíamos era que começasse por nós. Tínhamos esperança que fossem primeiro onde diziam que a havia às carradas. Talvez isso fosse suficiente e se não fosse assim, que nos fosse pedido algum sacrifício suportável e sem afectar significativamente o nosso bem-estar. Não foi assim, a extracção da gordura começou mesmo por nós, a eito, sem haver preocupação com aqueles que por decisão própria ou simplesmente pela natureza de cada um já eram magros. A outra gordura continua quase toda onde a havia e há, entranhada nos espaços, nas condições, nas mordomias e no futuro de quem nos administra a dose diária da pastilha.
O resto não cabe aqui. Se houver tempo, digo-o no tal almoço de que falei. Di-lo-ei, certamente, da próxima vez que vier a este palco.




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