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“A cultura não é um luxo”

Vinte e cinco mulheres e homens de diversas áreas da vida portuguesa foram instados pela revista Visão a partilhar ideias suscetíveis de ajudar a construir um mundo menos desigual, redigindo textos brevíssimos, de cerca de três dezenas de palavras. Cumprindo o constrangimento do tamanho, o escritor Car­los Tê disse ser necessário “redefinir a pobreza para não per­verter o essen­cial”. É que, acrescentou, “não ter um iPhone não é ser pobre. Nunca ter entrado numa livraria é”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
25 Nov 2012

“A cultura não é um luxo”, notou Androulla Vassiliou, comissária europeia para a Educação, a Cultura, o Multilinguismo, os Desportos, os Media e a Juventude, no Fórum de Avignon, em França. A cultura, diz ela, não é uma despesa. “É um investimento necessário para garantir o funcionamento sadio da sociedade – e ainda é mais necessário face aos desafios que decorrem da crise actual”.

A comissária observa que a presente crise económica origina um risco de conflito social: “As fracturas e as tensões entre grupos podem agudizar-se, com consequências e custos imprevisíveis”. Androulla Vassiliou julga por isso útil recordar que há “provas suficientes e bem documentadas” que demonstram que a participação cultural ativa, sem ser o meio mais evidente para combater a miséria, pode constituir um apoio poderoso para a coesão social. “A participação cultural encoraja o bem-estar, aumenta a auto-estima e pode melhorar o diálogo entre os indiví-
duos de origens étnicas e socioeconómicas diferentes. Envolver-se nas artes insere o indivíduo numa comunidade e oferece-lhe um sentimento de pertença. O cinema, a música, a literatura, o teatro: tudo favorece a compreensão do ponto de vista dos outros e ajuda a ultrapassar os preconceitos”.

A quem julgar que isto é conversa mais ou menos fiada, vale a pena recomendar vivamente o visionamento, no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=Iu98CwZy88c), de um documentário comoventíssimo, já emitido pela RTP2, sobre a orquestra Som de Rua, que reuniu cerca de seis dezenas de sem-
-abrigo do Porto e que muitos terão escutado e visto na Casa da Música, no Porto, ou, por iniciativa da Cruz Vermelha Portuguesa, no Parque de Exposições de Braga.

No depoimento prestado no Fórum de Avignon, que, este ano, com a ajuda de artistas, empreendedores, intelectuais e políticos, se propôs refletir sobre “As razões de esperar”, Androulla Vassiliou apresentou diversos exemplos que dão conta do modo como as artes e a cultura são também capazes de promover o progresso social e económico.

Um deles é Guimarães. “As capitais europeias da cultura demonstraram o potencial de desenvolvimento estratégico de longo prazo e seus efeitos no turismo, na renovação urbana e noutros sectores. Por cada euro investido no financiamento público das capitais europeias da cultura, o retorno do investimento multiplica-se por dez. Lille, Liverpool e Guimarães são bons exemplos de renovação trazida pelo estatuto de capital da cultura”, afirma a comissária europeia. Seja ou não exata a contabilização do lucro, os benefícios de que Guimarães soube usufruir afiguram-se evidentes.

Outro exemplo apresentado por Androulla Vassiliou do proveito que pode advir de uma aposta na cultura encontra-se na região de Puglia, em Itália, que, segundo a comissária, faz um uso estratégico de fundos estruturais da União Europeia para estimular as indústrias criativas. “Cada euro investido pela Comissão Filme Apulia para apoiar as produções cinematográficas na região, com a condição de empregarem mão-de-obra local, gera, pelo menos, quatro euros de despesa na região e retornos indirectos importantes em termos de turismo e de desenvolvimento socioeconómico”.

O cinema, o teatro, a literatura e a música também podem ajudar a melhorar os resultados escolares. Uma experiência que a comissária diz ter, a esse título, uma enorme relevância é a de El Sistema, um programa público venezuelano de educação musical. El Sistema, que patrocina mais de uma centena de orquestras de jovens e os respectivos programas de formação instrumental, conseguiu que 250 mil crianças de todo o país, 90 por cento provenientes de meios socioeconómicos desfavorecidos, frequentem escolas de música. Este e outros programas semelhantes desenvolvidos na Europa têm, garante Androulla Vassiliou, “um impacto espectacular no sucesso escolar e no aumento da auto-confiança das crianças que vivem em condições difíceis”.

Tem, pois, inteira razão Laure Kaltenbach, diretora-geral do Fórum de Avignon, quando diz que, “quer Jean Monnet [um dos fundadores da União Europeia] tenha ou não afirmado a célebre frase ‘e se fosse necessário refazer tudo, começaria pela cultura’, as crises actuais reclamam que se repense a nossa época e se coloque a cultura no coração da Europa para que um projecto comum nos una em todas as nossas diversidades”. No coração da Europa e no coração das cidades.




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