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Para onde irão as pedras da Avenida?

Onosso planeta ainda não teve tempo de completar trinta voltas ao Sol e já o chão da Avenida Central, em Braga, está de novo transformado num estaleiro! A quem por lá deambula, ao lusco-fusco do entardecer, vem à memória, de imediato, a trama do famoso livro do Nobel da Literatura Henrik Sienkiewicz (1846-1916), “Quo Vadis?”, que Lucien Nouguet e Ferdinand Zecca tão deliciosamente passaram para o cinema em 1901 – e que Mervyn Leroy, com o seu “remake” de 1951, catapultou para “filme de culto” ao pedir ao inimitável Peter Ustinov (no papel de Nero) que tocasse a lira da loucura enquanto Roma se consumia no crepitar das chamas…

Victor Blanco de Vasconcellos
24 Nov 2012

Durante o dia, enquanto os operários, agarrados a dinossáuricas máquinas, levantam pedra atrás de pedra, e a poeira tolda a luz solar, e o barulho ensurdece os lamentos dos transeuntes – nos olhos dos viandantes ergue-se este enorme ponto de interrogação: para onde estará a ser levada esta imensa quantidade de pedra, arrancada às toneladas ao ventre dos passeios e dos seus arredores? Que destino será o seu (porque, mesmo sendo pedras, destino hão de ter)?
Nestes intermináveis dias de pão minguado, em que todos ralham e ninguém tem razão, justo seria perguntar-se: de que longínquas terras de leite e mel vem o dinheiro (e tanto será!) para custear estas novas lajes de pedra que os suados operários semeiam no chão escuro da Avenida Central? Mas esta questão talvez seja mais do reino da filosofia, porque abstrata e talvez irrespondível, de tão complexa que é, talvez mais complexa do que as velhíssimas perguntas “quem somos?, donde vimos?, para onde vamos?”, que têm percorrido os séculos desde Heraclito de Éfeso até ao nosso contemporâneo Edgar Nahoum, que anda por aí conhecido como Edgar Morin…
Todavia, nestes tempos de míngua, impera o vetusto princípio do “primum vivere, deinde philosophare” (“primeiro viver, só depois filosofar”…). E natural é, por conseguinte, que os Bracarenses que por lá vagabundeiam – pela Avenida Central, repete-se! – sejam mais terra-a-terra do que os “amigos da sabedoria” e se limitem a uma interrogação sobre o que veem, ali, em concreto, a saltar da pele da terra: pedras e mais pedras supostamente velhas, supostamente inúteis, supostamente obsoletas… Mas que o não são!
E, por isso, perguntam, uma e outra vez, ainda que só com os olhos intrigados, em pesaroso silêncio, porque as paredes têm ouvidos: para onde irão estas pedras, que tantas são e tão belas ainda!, e tanto suor nos custaram não vai há muitos anos?
Toda a pergunta merece uma resposta. Mas… quem há de responder aos Bracarenses?!




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