Fotografia:
Gabriela, com pouco cravo e canela

Tenho encontrado pessoas que se confessam dececionadas com a atual versão da Gabriela. Acham que não as agarra, não as faz correr para diante do televisor como a primeira. Uma das razões será o facto de já não haver novidade. A Gabriela foi a primeira telenovela transmitida pela televisão portuguesa, algo de novo, de surpreendente, com um texto de qualidade e um grupo de artistas lendários.

Luís da Silva Pereira
24 Nov 2012

As melodias ficavam no ouvido, tão bonitas que a telenovela de agora decidiu, e bem, conservá-las. Também incomoda a pronúncia entaramelada dos atores, que parecem estar com aftas na língua ou a mastigar uns salgadinhos de caju. Pode ser que os brasileiros entendam sem dificuldade. Nós, porém, mais adivinhamos do que percebemos o que as personagens dizem.
Depois, as adaptações cinematográficas de romances quase sempre desiludem. Bem sabemos que um filme não pode seguir literalmente o original literário em que se inspira. São linguagens diferentes. Quando lemos um romance, o filme fazemo-lo nós na imaginação. Quando são outros a fazê-lo, não corresponde ao que sonhamos.
Se bem me lembro, a primeira versão acentuava mais a luta política contra o poder arbitrário dos coronéis. A versão atual, pelo menos até ao momento, parece privilegiar o aspeto social. Em ambos os casos, contudo, permanecem importantes linhas de força do romance, tais como a denúncia da beatice hipócrita e a apologia da liberdade do coração frente às conveniências sociais.
Gostava de referir um aspeto comum a ambas as versões que distorce, no meu entender, o texto original de Jorge Amado. Refiro-me à importância que nelas se dá ao Bataclã, que não corresponde, de modo nenhum, à importância (muito pouca) que ele tem na trama romanesca.
Mais ainda me surpreende, na versão atual, o espaço que se concede ao homossexualismo. No romance, o tema é perfeitamente episódico, ainda menos importante que o Bataclã. Apenas aparece, nas últimas páginas, o caso de um chef de cuisine, “gordote e troncudo, com um bigodinho encerado de pontas finas”, que viera substituir Gabriela como cozinheiro do restaurante do Nacib. De ascendência portuguesa (não perdoo ao Jorge Amado este pormenor biográfico da personagem… ou talvez, afinal, tivesse razão, pelo que vamos vendo…), o tal chef de cuisine, que se chamava Fernand e viera do Rio para Ilhéus, trazido pelo Mundinho Falcão, não satisfaz as preferências gastronómicas de Ilhéus e acaba por desaparecer, deixando o turquinho aflitíssimo, sem cozinheiro. E a isto se resume o seu aparecimento no enredo. Nada mais.
Não me lembro de, na primeira versão da novela, o tema ter qualquer relevância. Nesta segunda, porém, aflora a cada passo por meio de um tal de Miss Pirangi, caraterizado como caça-rapazes na testa e ademanes de Sodoma. Vive no meio das quengas e a si próprio se chama quenga.
Gostávamos de saber qual foi a intenção do realizador ao dar tanto relevo a uma personagem a que mal se alude no romance. Quis ser politicamente correto? Terá pretendido passar a mensagem de que o homossexualismo é algo de normal? Pretenderá captar a simpatia dos espectadores?
Acabo por ter sérias dúvidas! Se foram essas as intenções, acho que o tiro sai pela culatra. A personagem é tão ridícula, tão lamentável, que acaba por meter dó, senão mesmo repulsa!




Notícias relacionadas


Scroll Up