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Vedetas rurais

Quando eu era criança, há uns bons trinta e muitos anos, o futebol já era o divertimento preferido da malta. Não era o futebol na televisão porque na minha freguesia (Soutelo, Vila Verde) quase nem havia televisores; não era o futebol de sofá porque quase não havia sofás; não era o futebol de milhões porque quase nem havia tostões. Era o futebol de rua, em que a malta se divertia muito mais do que agora. Em cada lugar da freguesia havia uma equipa e organizávamos torneios entre os lugares. Por vezes entravam nesses torneios equipas dos lugares mais longínquos, formando-se uma espécie de Champions League sem milhões mas com muita paixão pela bola.

Manuel Cardoso
22 Nov 2012

Lembro-me que na minha equipa havia esta particularidade muito peculiar: como não tínhamos treinador, cada um de nós jogava na posição que lhe apetecia. Acontece que havia sempre um que não tinha jeito nenhum para a bola e ia para a baliza; depois havia três ou quatro que gostavam de jogar na defesa. Mas a esmagadora maioria queria era jogar “na frente”. Entre nós não havia essa coisa moderna dos médios defensivos, para ajudar os defesas. Os defesas que se desembaraçassem sozinhos porque a malta, das duas uma, ou defendia ou atacava. E se jogávamos “na frente” ninguém nos podia obrigar a vir para trás fazer de defesas. E como não tínhamos treinador (como disse acima) o jogo desenrolava-se mesmo assim. Se “a coisa” corresse bem, ou seja, se o adversário não “carregasse muito no pedal” aquilo era um espetáculo: nós corríamos, esfalfávamo-nos todos e dava-mos espetáculos “à Cristiano Ronaldo” e companhia, com goleadas de encher a barriga. Mas se “a coisa” dava para o torto, ou seja, se o adversário aparecia com uma estratégia bem montada para nos tramar, já não adiantava nada a habilidade que tínhamos; eles carregavam sobre os nossos pobres defesas e tratavam-nos da saúde.
A equipa do meu lugar nunca foi muito longe naqueles torneios porque, verdade seja dita, não era uma equipa ao nível dos tipos do lugar do Alívio, por exemplo, que eram craques a sério, ou mesmo dos de Fundevila, que era um lugar já com outros recursos, onde até havia um campo com balizas a sério (as nossas balizas eram duas pedras a servir de marcos e jogávamos muitas vezes no adro da Igreja, quando o padre deixava). Enfim, tínhamos poucos recursos…
Fosse como fosse, aquele futebol divertia-nos imenso; queríamos lá saber se podíamos perder no contra-ataque! Nós queríamos era dar espetáculo, correr para a frente, marcar golos, enfim, eramos umas verdadeiras vedetas. É lógico que ninguém nos dava carros de alta gama nem sequer carrinhos em miniaturas de plástico que se vendiam nas feiras; mas não era preciso isso para nós darmos espetáculo. Só não sabíamos defender e ninguém nos obrigava a isso. De resto, comportávamo-nos como autênticas vedetas.
Escusado será dizer que nenhum de nós deu jogador de futebol. Mas foi pena. Se tivéssemos tido alguma persistência talvez um dia tivéssemos chegado à Champions League a sério…




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