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Para além da vida, para além do tempo…

É no mês de novembro que mais profundamente sinto de como é passageira esta vida. “Quais folhas criadas pela estação florida da primavera, quando de súbito crescem sob os raios do sol, assim somos nós – por um tempo de nada, nos deleita a flor da juventude, sem conhecermos o mal ou o bem que vêm dos deuses. Ao lado estão as Keres (destino cruel, fatal e impossível de escapar) tenebrosas, uma, detentora da velhice medonha, a outra, da morte.

Abel de Freitas Amorim
21 Nov 2012

Pouco dura o fruto da juventude – o tempo de o sol derramar a sua luz sobre a terra. E depois, logo que chega o fim da estação (velhice), melhor é morrer logo do que viver, pois são muitos os males que surgem no nosso coração – ora é a casa que cai em ruína e os efeitos dolorosos da pobreza; outro não tem filhos e, sentindo a sua falta, desce ao Hades (mundo inferior e dos mortos) debaixo da terra; outro tem doença que lhe destrói a vida. Não há homem a quem Zeus (o pai dos deuses e dos homens) não dê muitos infortúnios”.
Este pequeno texto que nos apresenta a precaridade do homem e a tirania do destino, foi escrito no século VII a.C., na cidade de Cólofon, em pleno período arcaico, da Grécia Antiga. Somos como as folhas das árvores… O Homem está oprimido por uma ordem que não domina. O Homem é efémero. O Homem é conduzido, na sua curta vida, mas cego.
Passados que estão cerca de vinte e sete séculos, ou dois mil e setecentos anos, apesar de toda a evolução, de toda a maravilhosa ciência e tecnologia contemporânea, o Homem continua caracterizado como um ser débil ou frágil e a sua vida continua, relativamente, com a mesma precaridade.
Porém, um só acontecimento marca todo este tempo, um só acontecimento marca, influencia e transforma a humanidade – o antes e o depois de Cristo. Jesus Cristo, Deus humanado, deu-nos a conhecer melhor o mistério do Homem, na unicidade do nosso corpo e da nossa alma, ou do nosso espírito. Revelou-nos, para além disso, que o Homem, dentro dos parâmetros da sua liberdade, deve seguir o caminho do amor a Deus, do amor aos outros Homens, da caridade, da esperança e da vida eterna.
Ainda, relativamente ao Homem das civilizações antigas, o infortúnio da pobreza continua a ser uma chaga de muitos e muitos Homens das sociedades atuais. Quando nos referimos a Homens torna-se claro que são homens e mulheres dos nossos dias. É a pobreza originada pela falta de emprego, é a pobreza resultante de bens materiais mal geridos e mal distribuí-
dos, de meios e condições sociais inexistentes ou inadequados, é a pobreza resultante do consumismo desmedido, em que muitas pessoas se deixam mergulhar. Para além desta pobreza social, há a pobreza moral, há pobreza resultante da falta de valores, há a pobreza que emana, cada vez mais, do agir de pessoas que se regozijam em viver, apenas e tão-somente o presente, pois o futuro, segundo elas, é só para as pessoas ultrapassadas. Há ainda a pobreza daqueles que se deixam vencer pelas dificuldades normais da vida, dos que desmoralizam logo no primeiro virar na curva do caminho, que se deixam enredar nos vícios, na droga e, consequentemente, nas teias da doença e na morte prematuras.
Tudo isto desvirtua o Homem de hoje que parece andar em sentido contrário à evolução e que parece estar num patamar inferior aos Homens das civilizações mais antigas a quem, para além dos muitos deuses, nada mais lhes tinha sido revelado. No entanto, desde já e sem ilusões, pois nunca é tarde, ao Homem dos nossos dias deve ser indicado, apesar das dificuldades inerentes, o caminho da vida e o caminho na virtude da esperança.         
Pois, de outro modo, como deve ser triste ao Homem, dotado de racionalidade, viver neste mundo e não querer superar os animais ou os seres sem razão, que não têm a consciên-
cia da vida e da morte, pois têm apenas instintos que resultam da sua própria natureza. Perante toda a realidade, como deve ser, de facto, asfixiante e limitativo ao Homem não admitir uma continuidade ou vida para além do limite da existência do seu ser, insustentavelmente considerado por muitos apenas matéria, e para além do tempo…
Mesmo no sentido mais profundo da racionalidade do Homem moderno, as coisas, o mundo e tudo que é finito, são percecionados como uma aparência que nunca chegamos a conhecer, pois apenas delas temos conceitos. Os conceitos são individuais, pois cada ser humano concebe, por exemplo uma árvore, de forma e com significação diferente. Por tudo isso, nada conhecemos, nem a nós próprios, na sua essência.
Tudo que é finito é para nós, assim, uma aparência.
Logo, só o infinito, o nosso espírito, o eterno, Deus, é o que verdadeiramente é…




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