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Padecimento e dor de criança

Assisto à cena de longe, à saída dos alunos de uma escola da cidade. Protagonistas: uma criança (oito, nove anos, se tanto, mochila às costas) pela mão da mãe (trintona, desempoeirada) e um cavalheiro (sobrecenho carregado e ar displicente) que suponho o pai. Discutem acaloradamente. Ele a puxar pela criança para um lado, ela a puxar para o outro. A criança, essa, deixa-se balançar de um para o outro, arrastadamente.Penso, até, que não demorarão a passar à agressão. A criança, cabisbaixa, muda e tristonha, nunca toma partido. Parece mesmo uma bola de ténis de cá para lá ou um boneco articulado a que tivessem dado corda.

Dinis Salgado
21 Nov 2012

Há crianças aos magotes, a apreciar a cena, caladas e de mãos nos bolsos ou atrás das costas. E gente que vai passando na rua para a esmiuçar a cena, de longe sem um assomo.
Porém, há um momento em que sinto a agressão eminente da parte do cavalheiro. É quando este, gesticulando muito, cresce para a mulher, agora a escassos metros dele e com a criança bem agarrada. No entanto, ela prossegue para diante e atravessa a rua sem uma palavra. Ele, parado e azedo, alterca sempre.
Agora, a mulher, uns trinta metros já distante, para e começa a gesticular para trás. E a criança sempre cabisbaixa, tristonha e muda, pela mão da mãe. O cavalheiro dispara em direção a elas, punho no ar e palavrão ao vento.
Estaca outra vez e retrocede. Ela, de vez em quando, volta-se e gesticula muito, cada vez mais longe. A criança já nem se volta e sempre muda, cabisbaixa e tristonha parece a única interessada em correr o pano sobre a cena.
Ele finalmente desiste e, a resmungar, afasta-se na direção contrária à da mulher e da criança que, agora, desaparecem no cotovelo da rua. As crianças voltam às suas brincadeiras e os mirones formigam em todas as direções.
E quando o sossego volta a reinar sobre a rua, fico a pensar naquilo tudo (pais separados ou divorciados); sobretudo, no pouco ou nada que resta do que talvez tenha sido já uma família cordata, unida e feliz.
E, então, aquela criança tristonha, cabisbaixa e muda, balançando do pai para a mãe (talvez entre duas amizades dificeis de selecionar) como primeira, inocente e mais sacrificada vítima da situação, varou-me o coração e, seguramente, pelo padecimento e dor, sem remédio, que a trespassava.   
Então, até de hoje a oito.




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