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Metamorfoses enigmáticas

A natureza é pródiga em metamorfoses e outras alterações. Há mesmo categorias de seres vivos que têm o condão de se disfarçarem, mudando de cor para se furtarem aos seus inimigos. Foi este pensamento que me ocorreu quando li a afirmação “é quase inevitável haver eleições em 2013”, proferida pelo professor Freitas do Amaral ao “Diário de Notícias”, em entrevista publicada a 18 do corrente mês de novembro.

J. M. Gonçalves de Oliveira
20 Nov 2012

Para justificar esta afirmação, o antigo fundador do CDS e ex-ministro do Eng.º José Sócrates declarou não acreditar que o atual Governo e o seu ministro das Finanças mantenham a credibilidade técnica e política e assevera que estão a manipular os números e que não falam verdade aos portugueses. Neste raciocínio, entende mesmo que o Presidente da República terá de intervir, estando a aproximar-se o momento de o fazer, dissolvendo o Parlamento e convocando eleições, que o mesmo vaticina que se poderão realizar entre o quarto e o nono mês do próximo ano. Contudo, Freitas do Amaral não se fica pela afirmação da inevitabilidade de eleições antecipadas. Declara que do desfecho governativo a sair desse hipotético ato eleitoral não fará parte o CDS de Paulo Portas e que a solução é um Governo do PSD e do PS.
Ao recordar, ainda que brevemente, o trajeto político do Professor de Direito da Universidade de Lisboa, não se pode esquecer que, entre muitos outros cargos, foi fundador do CDS e da Aliança Democrática, presidente da União Europeia das Democracias Cristãs, candidato derrotado a Presidente da República pelo centro-direita e ministro dos Negócios Estrangeiros, de 12 de março de 2005 a 1 de julho de 2006, no governo do Partido Socialista.
Na extensão do seu percurso são muitas as surpresas a que nos foi acostumando. Porém, aquele exercício de futurologia, ainda que legítimo, não deixa de causar perplexidade. Não pelo exercício que faz, nem pelos conselhos que deixa subentendidos ao Presidente da República, mas pelas conclusões que dita.
Freitas do Amaral, ao afirmar categoricamente a necessidade de eleições antecipadas a curto prazo, não está a contribuir para a necessária estabilidade de que o país na atual situação precisa e junta a sua voz à de quantos sonham voltar aos tempos de 1975. Mais ainda, ao concluir que dessas eleições deve resultar um governo PSD/PS que exclua o CDS, está a pôr em causa não só a democraticidade desse suposto sufrágio, como a passar, ainda que inadvertidamente, um atestado de menoridade ao povo português.
Habituei-me desde cedo a respeitar as diferenças e a olhar a experiência dos mais velhos com respeito e atenção redobrada, sobretudo, daqueles com um vasto trajeto de vida. De igual modo, sempre aceitei ver em quantos assumem mudanças de rumo como uma emenda de trajetória e prova de inteligência. Como diz o provérbio “só os burros é que não mudam”. No entanto, há limites que, de tão largos, nos deixam atónitos. Mesmo para os espíritos mais abertos, certas metamorfoses originam assombro e espanto.
As múltiplas alterações que vamos testemunhando ao longo da vida, nas diversas áreas em que esta se vai desenrolando, não deixam de sedimentar algumas referências que, apesar do turbilhão de transformações presenciadas, constituem sempre padrões de sabedoria, de coerência e de exemplo. Constituem verdadeiras âncoras na conservação da identidade do povo e são guias importantes na construção do futuro.
Já tive no professor Freitas do Amaral uma dessas referências. Fui-lhe acompanhando o percurso e, com o tempo, a luz que no princípio tudo parecia iluminar foi perdendo intensidade e brilho e hoje, para mim, não é mais do que uma recordação triste.
A entrevista que deu ao “Diário de Notícias” constitui, na minha despretensiosa opinião, mais um sopro forte na chama que outrora foi vigorosa.




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