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A peixeira e o seu contexto

Não interessa dizer quem é, nem onde trabalhava, nem sequer onde mora. Vende peixe. Entrega-o agora ao domicílio, onde os clientes combinarem. Para estes, ficou mais fácil. Para ela, ao que diz, ficou mais rentável. Por causa da crise. Não percebem? Claro que percebem. Não há como apresentar um exemplo – dizem que os há às centenas – para melhor perceção da situação. Contaram-me assim. Assim vendo (não o peixe, mas a conversa), sem tirar nem pôr. Conto de cor, mas tenho a noção de que não acompanharei todos os pormenores que me foram transmitidos, não pela própria, mas por um terceiro, numa conversa amena numa curta viagem de automóvel na semana transata.

Luís Martins
20 Nov 2012

Aqui vai então. Uma peixaria, bem situada por certo, clientela fixa e suficiente para viabilizar o negócio e três trabalhadores casados e com filhos no espaço comercial para além da patroa. Era este o contexto antes da austeridade, já lá vão dezoito meses, mais mês menos mês. Depois, paulatinamente, as vendas foram diminuindo até que o fosso se tornou drástico e os encargos insustentáveis. Também a vida da dona da peixaria ficou quase inviável. Dizia que tinha ficado tão mal quanto o país. Em pouco tempo e sem que tenha feito nada para isso. Antes pelo contrário. De um mês para o outro – contou com a compreensão dos três colaboradores de longa data, do senhorio e da empresa que lhe tinha vendido o equipamento – desfizeram-se os contratos de trabalho e de arrendamento e negociaram-se as bancadas, as arcas frigoríficas e outro material próprio do negócio. O resultado foi fechar o estabelecimento e mandar os trabalhadores para o Centro de Emprego mais próximo. Com a transação do equipamento de frio e do outro, a peixeira por vocação liquidou as últimas faturas dos fornecedores e ficou ainda com algumas notas para sobreviver, com a sua família – marido, recentemente desempregado, e três filhos – durante algum (pouco) tempo. Não perdeu um minuto. Contactou, nos pontos que entendeu mais adequados e das mais diversas formas, os fregueses mais certos e assíduos. Os esforços foram recompensados. Valeram a pena as diligências. Logo mais, o negócio retomou. Não nos moldes anteriores, porque isso tinha sido provado pela própria, perante a inflexibilidade do contexto, não ser viável. Marginalizou o fisco e entrou, como muitos, na economia paralela. Mercado sem local, que não precisa de papéis, nem de contabilista, não se paga contribuições para a segurança social, nem IVA, nem IRS, nem taxa extraordinária. Mas a mulher que tem vocação para o trabalho e o negócio do peixe fresco sobrevive e com ela a sua família. A vendedora de peixe, por ter sido lesta, não perdeu muita clientela. Continua a vender-lhe o produto fresco e de qualidade. Marca encontro e pronto, à hora e local marcados lá está ela para a transação. O que gasta de combustível é compensador. A clientela agradece.

A vendedora não está só. Não é, certamente, caso isolado. Contaram-me outros casos de vida, todos dramáticos, todos com a vida apertada, faltando pouco para morrerem, com os seus mais chegados, por asfixia económica. Acredito que haverá muitas histórias iguais ou parecidas. Do mesmo ramo e de outras atividades. Envolvendo muitas outras famílias. As dos que são patrões e as dos subordinados, dos respetivos trabalhadores. Os negócios que ficaram inviáveis, tornam-se assim mais rentáveis – pelo menos, dão para sobreviver –, mas os promotores perdem proteção social. O Estado fica sem importantes receitas. Os cidadãos, no seu conjunto, esses veem–se confrontados com menos cuidados e apoios do Estado e empresas e trabalhadores têm mesmo, na fase seguinte, de contribuir um pouco mais, apesar dos benefícios continuarem a diminuir. O contexto vai-se degradando. Inicia-se e desenvolve-
-se, num ápice, um ciclo vicioso que não pára mais. Está-se agora na fase aguda. Transformar o ciclo depende dos governantes e outros representantes eleitos deixarem alguns modelos pré-formatados, por instantes que sejam, e encetarem uma visita ao país real, à economia das famílias, às dificuldades das pessoas. Haverá também sucesso se também falarem com quem sabe, com quem experimenta a solidariedade no dia a dia e não apenas com quem a promove na vertente financeira e, por isso, a considera um custo, e perceba que as pessoas “precisam de respirar”, para utilizar uma expressão proferida, a propósito da situação do país, pelo bispo do Porto, D. Manuel Clemente. Em situações de sufoco como a que atravessamos, comportamentos desconformes com a legalidade acabam por acontecer naturalmente, não por os promotores deliberadamente os preferirem, mas por já não aguentarem a asfixia a que estão submetidos. Quem sai do sistema pode muito bem sair em legítima defesa – quem o não faria? – para salvaguardar, simplesmente, como a peixeira referida, as necessidades básicas da sua família. O regresso à loja da esquina da rua só depende de contexto favorável. E não será ela a responsável por isso.




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